- Ayssa Bastos -

– Ayssa Bastos –

naquela tarde ela disse que me amava. ela sentou na poltrona, acendeu um cigarro, lia um livro que não sei e foi por cima das páginas que eu ignorava que ela me olhou para piscar e dizer. disse assim, descomprometida das consequências: ‘eu te amo, tanto’. depois fez uma pausa, enxugou uma lágrima. tive pena de mim. aquilo doeu como uma abelha fustigando o centro do peito. fui incapaz de responder. meus olhos passeavam por ela como os olhos do menino que fita a folha de papel de seda no ar, um pássaro. depois daquilo, balançando o pé no ar com a perna cruzada, ela terminou a leitura e se fez ausente. o cigarro terminou, a luz do sol tingiu os restos da fumaça de lilás.

choveu o dia seguinte, o outro também. o papel de seda encharcou entre as nuvens do meu querer. envergaram os meus ombros. sufoquei a ilusão com um duro golpe. ela ligou, eu não respondi. ela escreveu, eu não li. ela chamou por mim e eu deixei que ela se fosse, aos poucos, sumindo, desintegrando, desfazendo aquele mal. aos poucos ela desistiria de insistir e eu teria que desistir na desistência dela. por aqueles dias corri ver meu time. convidei alguém para minha cama sofrendo não aspirar naquele novo corpo o mesmo perfume que desenhava minhas utopias. engoli a saudade a palo seco. a palo seco foi a expressão que ela usou quando disse que me diria aquilo que disse numa tarde, sentada na poltrona que resta vazia entre as brumas do meu silêncio.

 

 penélope martins.

 

 

 

vinha no trem uma mulher com verniz nas unhas. tom rosa pálido que não combinava com a blusa bordada de lantejoulas douradas. extravagantes as sandálias de dedo com as unhas dos pés também pintadas. os olhos da mulher eram pequenos, apertados no meio de um rosto marcado – ainda que ela o tivesse tentado esconder com a maquilagem pastosa. vinha no trem uma mulher que eu não conheço; suas unhas rosadas levavam minha atenção porque os dedos dela eram delicados e mansos passeando por mechas de seus cabelos descoloridos. e eu imaginei que dentro de seus lábios ressecados dormia uma história que me faria gostar ainda mais de estar sentada ao seu lado, num trem qualquer, num dia perfeito como hoje.

 

Penélope Martins, em ‘coisas da vida’.

Atravessava a noite úmida envolta por seu longo véu tecido por sete mil aranhas que moravam no seu sótão. Ia pálida, como haveria de ser. Não fosse o desvio, entre as árvores, que fizeram crescer suas narinas extasiadas de cheiro verde oliva que quase se desmanchava no céu da boca de tão doce, e seu véu se rasgou – quase imperceptível fenda.

Foi justamente pelo fio rompido que entrou aquela abelha, vestida de amarelo vivo, brilhante como um sol de meio dia no meio da escuridão. Zunia e dançava, passeava sobre os lábios da mulher e seduzia com formigamentos de veneno. Avançaram sobre a luminosa um exército de aranhas viúvas dizendo que nada deveria romper o véu, nem o silêncio, nem a neblina da noite.

Dentro do ouvido direito da mulher, outras aranhas entoavam um cântico de dor e morte para que ela se sacrificasse até o fim dos tempos (por todos os séculos).

A abelha amarela faiscante de brilho, sem se deixar intimidar pela celebração fúnebre de suas oponentes, andou sobre o peito da mulher, cocegou seus seios e lhe acendeu o mel do ventre.

“Venha comigo”, disse a abelha, “ venha e eu te lambuzarei do teu próprio mel, o mel que nasce do teu ventre”.

Disse isso e voou para fora da fresta, longe das aranhas tecelãs que a provocavam e incitavam disputa.

As aranhas não deixariam desvirtuar o véu tecido ao longo de tantos anos, nem aprovariam que a mulher de mel se lambuzasse e lhe manchasse a barra do vestido aquele viscoso ouro.

Por um instante, o veneno da abelha percorreu o corpo feminino e latejou um movimento crescente entre as virilhas. Quase desfalecia a pobre mulher.

Atirou-se contra os troncos e revirou os olhos percorrendo cometas.

Entre as árvores a mulher se apavorou e aos soluços implorou que lhe deixassem em paz, aranhas e abelha.

O véu já ia roto, a noite escura já não se demorava e o dia não tardaria chegar.

 

– Penélope Martins –

 

Man Ray

 

não cabe a promessa nesse jogo.no amor, como na guerra, a estratégia é morrer. revirar olhos gemendo sem pudores. entorpecidos se estrangulam, o beijo. expandem e se engolem. há uma janela violada, pintura crua. veneziana penetrada pelo odor das flores que só dançam para a lua. quem de paixão se esconde, da vida não merece muito. ácido o sal que brota deste rio que cintila a ponta dos dedos. as pernas entrelaçadas a ditar poemas.

 

– Gustave Courbet –

 

avança furioso o olhar famigerado de paixão doentia da qual não ousa empalidecer. nada lhe dá mais prazer do que alimentar o bicho que lhe traça as entranhas.seu solfejar de amores rompidos profetiza a nova vida. lambuzada de suor, ela carrega o estigma do otimismo natural.

Lisboa é uma mulher

- retrato de José Luís Espada Feio - http://josespadafeio.blogspot.com.br

– retrato de José Luís Espada Feio – http://josespadafeio.blogspot.com.br

Restava aberta a janela do quarto,  amanhecia e o sol já se projetava dourado.

– Não desejo deixar a cama.

– Pois não deixe.

– Lisboa é tão linda vista assim, da minha janela.

– Lisboa é nossa Cidade perfeita.

– Lisboa é uma mulher para a qual não se propõe casamento.

(Ele sorriu. Na verdade, ele deu uma gargalhada porque adorava quando ela abraçava devaneios.)

– Digo isso porque Lisboa é uma amante, deitada sobre um leito amplo, com lençóis recém lavados. De frente ao leito passa um céu azul infinito. Parte do céu toca a terra com gotas orvalhadas. E corre, de amor faz mar.

(Naquele momento, os olhos dela verteram lágrimas e ele deitou novamente sobre seu corpo nu e fez com que ela se sentisse Lisboa.)

pro fundo. fundo.

 

ilustração Marcos Garuti

ilustração Marcos Garuti

 

tarados. expande, engole. resvala, consome. presume, mata, aspira, come. expia teus pecados. tarado. tarado. ateia fogo, colore. expande, engole.

catequismo de tarado é tara. assertiva de tarado é marra. primazia de tarado é tanta; a fome tamanha, tamanha, tamanha… esgota. expande, engole.

anômalos famintos, profanos destemidos. profundo. pro fundo. fundo.