Pavão Vermelho, de Sosígenes Costa

 

Ora, a alegria, este pavão vermelho,
está morando em meu quintal agora.
Vem pousar como um sol em meu joelho
quando é estridente em meu quintal a aurora.

Clarim de lacre, este pavão vermelho
sobrepuja os pavões que estão lá fora.
É uma festa de púrpura. E o assemelho
a uma chama do lábaro da aurora.

É o próprio doge a se mirar no espelho.
E a cor vermelha chega a ser sonora
neste pavão pomposo e de chavelho.

Pavões lilases possuí outrora.
Depois que amei este pavão vermelho,
os meus outros pavões foram-se embora.

 

– SOSÍGENES COSTA (1901 – 1968)  –

canção de sesta – LXI, de Álvares de Azevedo

Se teus cílios de sereia
Te dão um ar peregrino,
Que longe é de ser divino,
Fada do olhar que me enleia.

Eu te adoro, ternamente,
Minha terrível paixão!
Sempre com a devoção
Que tem pelo ídolo um crente.

As florestas e o deserto
Perfumam-te as tranças rudes;
Tens na fronte as atitudes,
Do que é enigmático e incerto.

Como em torno do incensário,
Em teu corpo o perfume arde;
E fascinas como a tarde,
Ninfa do ar mais funerário.

Ah, o filtro, mesmo se forte,
Não vale tua delícia,
E conheces a carícia
Que faz reviver a morte!

Tens ancas muito amorosas
De teus seios e teus rins,
E arrebatas os coxins,
Com flexões tão langorosas.

Vezes, para ser vencida
Tua raiva de mistério
Prodigalizas, de ar sério,
O beijo como a mordida;

Tu me laceras, morena,
Com riso de algum despeito,
E pões depois no meu peito
Teu olho, lua serena.

Sob teu sapato rendado,
Sob os teus pés que são seda,
Ponho de alma sempre leda
O meu gênio com meu fado.

Minha alma por ti se cura,
Por ti que és o lume a e cor!
És a explosão do calor
Em minha Sibéria escura.




*poesia de Álvares de Azevedo
** imagem, fotografia de Henri Cartier-Bresson

É neste mundo que te quero sentir

É o único que sei. O que me resta.

Dizer que vou te conhecer a fundo

Sem as bençãos da carne, no depois,

Me parece a mim magra promessa.

Sentires da alma? Sim. Podem ser prodigiosos.

Mas tu sabes da delícia da carne

Dos encaixes que inventaste. De toques.

Do formoso das hastes. Das corolas.

Vês como fico pequena e tão pouco inventiva?

Haste. Corola. São palavras róseas. Mas sangram.

 

Se feitas de carne.

 

Dirás que o humano desejo

Não te percebe as fomes. Sim, meu Senhor,

Te percebo. Mas deixa-me amar a ti, neste texto

Com os enlevos

De uma mulher que só sabe o homem.

 

 

Hilda Hilst, poema VIII, retirado de Poemas Malditos, Gozozos e Devotos.

As nossas madrugadas, de Maria Teresa Horta

 

Desperta-me de noite
o teu desejo
na vaga dos teus dedos
com que vergas
o sono em que me deito

pois suspeitas

que com ele me visto e me
defendo

É raiva
então ciume
a tua boca

é dor e não
queixume
a tua espada

é rede a tua língua
em sua teia

é vício as palavras
com que falas

E tomas-me de força
não o sendo
e deixo que o meu ventre
se trespasse

E queres-me de amor
e dás-me o tempo

a trégua
a entrega
e o disfarce

E lembras os meus ombros
docemente
na dobra do lenços que desfazes
na pressa de teres o que só sentes
e possuires de mim o que não sabes

Despertas-me de noite
com o teu corpo

tiras-me do sono
onde resvalo

e eu pouco a pouco
vou repelindo a noite

e tu dentro de mim
vais descobrindo vales.

 

 

*poema de Maria Teresa Horta.

** ‘abandono’, de Penot.

- Ayssa Bastos -

– Ayssa Bastos –

naquela tarde ela disse que me amava. ela sentou na poltrona, acendeu um cigarro, lia um livro que não sei e foi por cima das páginas que eu ignorava que ela me olhou para piscar e dizer. disse assim, descomprometida das consequências: ‘eu te amo, tanto’. depois fez uma pausa, enxugou uma lágrima. tive pena de mim. aquilo doeu como uma abelha fustigando o centro do peito. fui incapaz de responder. meus olhos passeavam por ela como os olhos do menino que fita a folha de papel de seda no ar, um pássaro. depois daquilo, balançando o pé no ar com a perna cruzada, ela terminou a leitura e se fez ausente. o cigarro terminou, a luz do sol tingiu os restos da fumaça de lilás.

choveu o dia seguinte, o outro também. o papel de seda encharcou entre as nuvens do meu querer. envergaram os meus ombros. sufoquei a ilusão com um duro golpe. ela ligou, eu não respondi. ela escreveu, eu não li. ela chamou por mim e eu deixei que ela se fosse, aos poucos, sumindo, desintegrando, desfazendo aquele mal. aos poucos ela desistiria de insistir e eu teria que desistir na desistência dela. por aqueles dias corri ver meu time. convidei alguém para minha cama sofrendo não aspirar naquele novo corpo o mesmo perfume que desenhava minhas utopias. engoli a saudade a palo seco. a palo seco foi a expressão que ela usou quando disse que me diria aquilo que disse numa tarde, sentada na poltrona que resta vazia entre as brumas do meu silêncio.

 

 penélope martins.

 

 

 

Se Tu Viesses Ver-me…

Gustave Brisgand (1867-1944)

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços…

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca… o eco dos teus passos…
O teu riso de fonte… os teus abraços…
Os teus beijos… a tua mão na minha…

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca…
Quando os olhos se me cerram de desejo…
E os meus braços se estendem para ti…

– Florbela Espanca –

* conheça mais da arte de Tatiana Moes em https://www.behance.net/TatianaMoes

– Tatiana Moes –

 

II

– Eis que então se percebe uma pequena tira

De azul escuro, em meio à ramaria franca,

Picotada por uma estrela má, que expira

Em doce tremular, muito pequena e branca.

 

Noite estival! A idade! – A gente se inebria;

A seiva sobe em nós como um champanhe inquieto…

Divaga-se; e no lábio um beijo se anuncia,

A palpitar ali como um pequeno inseto…

 

– Rimbaud, Romance.