Elegia: Indo para o Leito, de John Donne com tradução de Augusto de Campos

ELEGIA: INDO PARA O LEITO

Vem, Dama, vem, que eu desafio a paz;
Até que eu lute, em luta o corpo jaz.
Como o inimigo diante do inimigo,
Canso-me de esperar se nunca brigo.
Solta esse cinto sideral que vela,
Céu cintilante, uma área ainda mais bela.
Desata esse corpete constelado,
Feito para deter o olhar ousado.
Entrega-te ao torpor que se derrama
De ti a mim, dizendo: hora da cama.
Tira o espartilho, quero descoberto
O que ele guarda, quieto, tão de perto.
O corpo que de tuas saias sai
É um campo em flor quando a sombra se esvai.
Arranca essa grinalda armada e deixa
Que cresça o diadema da madeixa.
Tira os sapatos e entra sem receio
Nesse templo de amor que é o nosso leito.
Os anjos mostram-se num branco véu
Aos homens. Tu, meu anjo, és como o céu
De Maomé. E se no branco têm contigo
Semelhança os espíritos, distingo:
O que o meu anjo branco põe não é
O cabelo mas sim a carne em pé.
Deixa que a minha mão errante adentre
Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.
Minha América! Minha terra à vista,
Reino de paz, se um homem só a conquista,
Minha mina preciosa, meu Império,
Feliz de quem penetre o teu mistério!
Liberto-me ficando teu escravo;
Onde cai minha mão, meu selo gravo.
Nudez total! Todo o prazer provém
De um corpo (como a alma sem corpo) sem
Vestes. As jóias que a mulher ostenta
São como as bolas de ouro de Atalanta:
O olho do tolo que uma gema inflama
Ilude-se com ela e perde a dama.
Como encadernação vistosa, feita
Para iletrados, a mulher se enfeita;
Mas ela é um livro místico e somente
A alguns (a que tal graça se consente)
É dado lê-la. Eu sou um que sabe;
Como se diante da parteira, abre-
Te: atira, sim, o linho branco fora,
Nem penitência nem decência agora.
Para ensinar-te eu me desnudo antes:
A coberta de um homem te é bastante.

                       Tradução: Augusto de Campos

ELEGY: GOING TO BED

Come, Madam, come, all rest my powers defy;
Until I labour, I in labour lie.
The foe ofttimes, having the foe in sight,
Is tired with standing, though he never fight.
Off with that girdle, like heaven’s zone glittering,
But a far fairer world encompassing.
Unpin that spangled breast-plate, which you
[ wear,
That th’ eyes of busy fools may be stopp’d there.
Unlace yourself, for that harmonious chime
Tells me from you that now it is bed-time.
Off with that happy busk, which I envy,
That still can be, and still can stand so nigh.
Your gown going off such beauteous state
[ reveals,
As when from flowery meads th’ hill’s shadow
[ steals.
Off with your wiry coronet, and show
The hairy diadems which on you do grow.
Off with your hose and shoes ; then softly tread
In this love’s hallow’d temple, this soft bed.
In such white robes heaven’s angels used to be
Revealed to men ; thou, angel, bring’st with thee
A heaven-like Mahomet’s paradise ; and though
Ill spirits walk in white, we easily know
By this these angels from an evil sprite;
Those set our hairs, but these our flesh upright.
Licence my roving hands, and let them go
Before, behind, between, above, below.
O, my America, my Newfoundland,
My kingdom, safest when with one man mann’d,
My mine of precious stones, my empery;
How am I blest in thus discovering thee !
To enter in these bonds, is to be free ;
Then, where my hand is set, my soul shall be.
Full nakedness ! All joys are due to thee;
As souls unbodied, bodies unclothed must be
To taste whole joys. Gems which you women use
Are like Atlanta’s ball cast in men’s views ;
That, when a fool’s eye lighteth on a gem,
His earthly soul might court that, not them.
Like pictures, or like books’ gay coverings made
For laymen, are all women thus array’d.
Themselves are only mystic books, which we
—Whom their imputed grace will dignify —
Must see reveal’d. Then, since that I may know,
As liberally as to thy midwife show
Thyself; cast all, yea, this white linen hence;
There is no penance due to innocence :
To teach thee, I am naked first; why then,
What needst thou have more covering than a
[ man? 

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Retrato, de Cecília Meireles

Eu não tinha este rosto de hoje,

assim calmo, assim triste, assim magro,

nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,

tão paradas e frias e mortas;

eu não tinha este coração que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,

tão simples, tão certa, tão fácil:

Em que espelho ficou perdida a minha face?

 

 

vinha no trem uma mulher com verniz nas unhas. tom rosa pálido que não combinava com a blusa bordada de lantejoulas douradas. extravagantes as sandálias de dedo com as unhas dos pés também pintadas. os olhos da mulher eram pequenos, apertados no meio de um rosto marcado – ainda que ela o tivesse tentado esconder com a maquilagem pastosa. vinha no trem uma mulher que eu não conheço; suas unhas rosadas levavam minha atenção porque os dedos dela eram delicados e mansos passeando por mechas de seus cabelos descoloridos. e eu imaginei que dentro de seus lábios ressecados dormia uma história que me faria gostar ainda mais de estar sentada ao seu lado, num trem qualquer, num dia perfeito como hoje.

 

Penélope Martins, em ‘coisas da vida’.

Atravessava a noite úmida envolta por seu longo véu tecido por sete mil aranhas que moravam no seu sótão. Ia pálida, como haveria de ser. Não fosse o desvio, entre as árvores, que fizeram crescer suas narinas extasiadas de cheiro verde oliva que quase se desmanchava no céu da boca de tão doce, e seu véu se rasgou – quase imperceptível fenda.

Foi justamente pelo fio rompido que entrou aquela abelha, vestida de amarelo vivo, brilhante como um sol de meio dia no meio da escuridão. Zunia e dançava, passeava sobre os lábios da mulher e seduzia com formigamentos de veneno. Avançaram sobre a luminosa um exército de aranhas viúvas dizendo que nada deveria romper o véu, nem o silêncio, nem a neblina da noite.

Dentro do ouvido direito da mulher, outras aranhas entoavam um cântico de dor e morte para que ela se sacrificasse até o fim dos tempos (por todos os séculos).

A abelha amarela faiscante de brilho, sem se deixar intimidar pela celebração fúnebre de suas oponentes, andou sobre o peito da mulher, cocegou seus seios e lhe acendeu o mel do ventre.

“Venha comigo”, disse a abelha, “ venha e eu te lambuzarei do teu próprio mel, o mel que nasce do teu ventre”.

Disse isso e voou para fora da fresta, longe das aranhas tecelãs que a provocavam e incitavam disputa.

As aranhas não deixariam desvirtuar o véu tecido ao longo de tantos anos, nem aprovariam que a mulher de mel se lambuzasse e lhe manchasse a barra do vestido aquele viscoso ouro.

Por um instante, o veneno da abelha percorreu o corpo feminino e latejou um movimento crescente entre as virilhas. Quase desfalecia a pobre mulher.

Atirou-se contra os troncos e revirou os olhos percorrendo cometas.

Entre as árvores a mulher se apavorou e aos soluços implorou que lhe deixassem em paz, aranhas e abelha.

O véu já ia roto, a noite escura já não se demorava e o dia não tardaria chegar.

 

– Penélope Martins –

 

Man Ray