Não tenho saudades.
Talvez porque o corpo que te deixei
Era o véu caído aos pés da incerteza
E sobre a mesa o retrato
Nunca traduziu verdades firmes.

Pensar que fomos um dia essa nuvem
Onde a noite se fustigava, custa muito
A crer. Aos teus olhos desatentos
Nunca a luz se recolheu e aos meus
O sol e o luar deram-me a cegueira.

Não tenho saudades. Na sombra
O teu nome é como o mar que seca
Sempre que se lembra de nós.

* Alexandre Honrado

bobinha,

Num primeiro momento não vejo em mim qualquer semelhança com Clarice Lispector, quer pela minha falta de talento com a escrita, quer pela evidência do ânimo, o tal estado de espírito que em mim é com ganas de alegria. Clarice parecia se ausentar de alegria. Mas talvez não fosse, afinal a aparência engana a todos (quantas vezes desconheço a aparência do meu próprio espelho).

Clarice parece ser feita de camadas como uma cebola. Não se finda e não faltam lágrimas a cada desabrochar. O coração avançava selvagem para digerir um pouco da evidente miséria humana.

Minha simpatia com Clarice é na falta de entendimento que descreve tão bem a arte de ser bobo. Ser um bobo que se permite viver a liberdade que não sabe usar. E usa sem mesmo saber.

Das Vantagens de Ser Bobo

” O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: “Estou fazendo. Estou pensando.”

Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia.

O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoiévski.

Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranquilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo nem nota que venceu.

Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a frase célebre: “Até tu, Brutus?”

Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!

Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.

O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.

Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, como tolo, como fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!

Bobo é Chagall que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que um bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.”

* Clarice Lispector