no meio do caminho, de Carlos Drummond de Andrade

No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra.

 

Para marcar os 40 anos do poema “No meio do caminho”, Carlos Drummond de Andrade publicou, em 1967, o livro Uma pedra no meio do caminho — Biografia de um poema, no qual reuniu uma ampla seleção com o que foi dito sobre os famosos versos. O Instituto Moreira Salles lançou em 2010 uma nova edição do livro concebido pelo próprio Drummond, ampliada pelo também poeta Eucanaã Ferraz. Por ocasião do lançamento, o IMS produziu um vídeo com a leitura de “No meio do caminho” em vários idiomas.

“Amor e Outros Crimes em Vias de Perdão”, 1, de Alice Vieira

tu nunca hás de entender o tamanho das noites

em que gastei tudo o que havia

por dentro dos meus olhos

os rios que de ti desaguaram sempre

nas minhas veias

 

eu não sabia

ou talvez já o tivesse esquecido

como podem ser mortíferas as cinzas

das palavras que um dia tiveram asas

 

e ainda mais mortíferas as garras

que nos destroem com os pequenos medos quotidianos

a que não podemos escapar

porque as sílabas da paixão são sempre

os primeiros objectos a serem retirados do quarto

para que tudo regresse à prateleira certa

e de manhã a poeira nos vista

tranquilamente

como um hábito

 

e foi por isso que nessas noites morri muitas vezes

enquanto as secretas palavras de adeus alastravam

pela foz do teu desejo

e a minha pele se despia

vagarosamente

da tua