poema sem título, de Alexandre Honrado

Céu após céu
todos os céus
nos passam a
montante e é
por isso que a
tua chuva vem
veloz do caule
onde és flor de
luz, orvalho nu.

São os teus olhos:
Desembocam no ar.

Guardo-me, só,
no vale do teu sorriso.

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em Sintra, de Luís Miguel Nava

As águas maravilham-se entre os lábios e a fala, rápidos em Sintra espelhos surgem como pássaros, a luz de que se erguem acontece às águas, à flor da fala divide os lábios e a ternura. Da linguagem rebentam folhas duma cor incómoda, as de que maravilhado de água surges entre livros, algum crime, um menino a dissolver-se ou dele os lábios e ergues equívoca a luz depois. Rápidos espelhos então cercam-te explodindo os pássaros.

 

* Luís Miguel Nava Poeta poeta e crítico literário, nascido a 29 de setembro de 1957, em Viseu, e falecido a 10 de maio de 1995, em Bruxelas, formou-se em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa, onde desempenhou funções docentes. Viveu os últimos anos em Bruxelas, como funcionário da Comunidade Europeia. O seu bárbaro assassinato, em 1995, chocou o meio literário português que tinha visto no autor de Rebentação uma das presenças mais fortes e transgressivas reveladas no panorama poético português dos anos 80. Desde o seu primeiro livro, Películas, distinguido com o Prémio Revelação da Sociedade Portuguesa de Autores, até Vulcão, a poesia de Luís Miguel Nava assume, com efeito, um carácter anti convencional, seja pelas imagens de um corpo cuja nudez evoca tanto a expressão da verdade despida de preconceitos, como a fragilidade de um corpo dilacerável, seja pela contínua materialização da reflexão sobre o eu, exteriorizado nas suas vísceras e intestinos. Para Gastão Cruz, a obra de Luís Miguel Nava “surge ao arrepio de algumas tendências, mansamente quotidianas, da poesia da década de 70”, configurando, “talvez como nenhuma outra nos anos 80, os fantasmas e os monstros de uma década trágica, radiografando implacavelmente os corpos ameaçados da humanidade dos nossos dias” e inventando, para tal tarefa, formas novas de expressão: “Luís Miguel Nava introduz na literatura portuguesa formas exclusivas, poemas em verso tão esqueleticamente agudos como os ossos e os espinhos de que nos falam, textos em prosa que se situam a meia distância entre o poema e o conto, criando um discurso de textura surda, que combina a densidade e a obscuridade da poesia com a dolorosa vertebração de uma narratividade alucinada.

 

avança furioso o olhar famigerado de paixão doentia da qual não ousa empalidecer. nada lhe dá mais prazer do que alimentar o bicho que lhe traça as entranhas.seu solfejar de amores rompidos profetiza a nova vida. lambuzada de suor, ela carrega o estigma do otimismo natural.

Lisboa é uma mulher

- retrato de José Luís Espada Feio - http://josespadafeio.blogspot.com.br

– retrato de José Luís Espada Feio – http://josespadafeio.blogspot.com.br

Restava aberta a janela do quarto,  amanhecia e o sol já se projetava dourado.

– Não desejo deixar a cama.

– Pois não deixe.

– Lisboa é tão linda vista assim, da minha janela.

– Lisboa é nossa Cidade perfeita.

– Lisboa é uma mulher para a qual não se propõe casamento.

(Ele sorriu. Na verdade, ele deu uma gargalhada porque adorava quando ela abraçava devaneios.)

– Digo isso porque Lisboa é uma amante, deitada sobre um leito amplo, com lençóis recém lavados. De frente ao leito passa um céu azul infinito. Parte do céu toca a terra com gotas orvalhadas. E corre, de amor faz mar.

(Naquele momento, os olhos dela verteram lágrimas e ele deitou novamente sobre seu corpo nu e fez com que ela se sentisse Lisboa.)

Os dois poços imundos de lágrimas

Tateiam no escuro a sombra dos girinos

A exaltar a vida dos vermes na pujança de nados sincronizados.

Perto da borda, entre cílios desabotoados,

dois poços secaram.

A mancha de sal esbranquiçou a cor da pele.

As covas fundas encerraram o último ai

Desenham a boca os sortilégios

– os sorrisos que poderia já não podes.

Logo não haverá quem de ti tenha dó,

Menos compaixão e vontade.

Um chumaço de algodão lhe preenche a falta do ouro.

Arranham sons débeis as beatas

tontas sem profissão, sem tricot,

no correr do terço puído

antes que o sacerdote manco arranque alguns trocados.

Há aqueles que se regozijam com tua morte.

Dentro do pomo de Adão

A última missiva

O pedido tardio de desculpas.