aquarela de Van der Moes

aquarela de Van der Moes

penetra-me a palavra

o recôncavo do peito.

Palavra de sal e beijo

de espuma: tens-me refém.

Lá fora suplicam os sons

desditos na curva da escápula.

Aqui dentro, sons não-ditos

roçam lóbulos a folhear

dicionários do fim

ao recomeço.

*PMartins

ESTAVA ESCRITO BOM DIA, de Roberto Bozzetti

E depois que se foi
a felicidade
a gente foi tateando
buscar nossos óculos
(os dedos pegajavam as lentes)
e rápido mas sem pressa saímos
recolhendo pelo chão
brincos
a cueca a calcinha
enroladas nos moletons
jeans, cálices
xícaras
sherry
café
maços e cinzeiros
lambuzados nos sabíamos
sem nenhuma vergonha
e também
que a felicidade se foi
mas vem de novo
embora pela janela nem desse sinal
a boca seca
o alho na porta da geladeira
a imagem do tálamo
tudo volta
antes de para
sempre
*O poeta Roberto Bozzetti assina o blog Firma Irreconhecível