A costureirinha que deu aquele mau passo, de Evaristo Carriego

A costureirinha que deu aquele mau passo…

– e pior de tudo, sem necessidade –

com o sem-vergonha que não lhe fez caso

depois… – segundo comentam na cidade –

 

se foi faz dois dias. Não era possível

fingir por mais tempo. Dava compaixão

vê-la penar essa maldade insofrível

de suas companheiras, tão sem coração!

 

Embora a nada levem tais conversações,

no bairro correm mil suposições,

até em algo grave quer se acreditar.

 

Que semblante tinha a costureirinha,

que olhos mais estranhos, nessa tardezinha

que deixou a casa para não voltar! …

 

Quando acordei, diante do espelho ainda tonta, notei o pequeno ovo nascido sobre a  clavícula direita, um leve inchaço, meus olhos amarelados. O braço direito cansado em formigamento denunciava minha inexatidão e eu esmaeci pensando na morte que teria e que seria a mais breve de todas e que o tempo até ela correria com muitos afazeres. Pensei nos poemas a terminar, nos arquivos a apagar, nos amigos a escrever, nos copos a entornar e até mesmo na erva que ainda haveria de acender. Pensei em mim tão jovem, tão cheia de sonhos, tão ilustre desconhecida e tão desnecessária para aqueles que me rodeiam diariamente e pensam que um dia sentirão minha falta. Pensei nas noites mal dormidas e nas preocupações insignificantes diante daquela constatação sublime de eu estava a morrer. Pensei em mim nos teus braços, naquela noite de amor em que a sentença de término ocorreu no preâmbulo, pois teus olhos já escreviam a falta de cuidado que terias comigo. Mesmo assim pensei em ti, diante do espelho, enquanto contemplava o pequeno ovo depositado na minha clavícula direita. Pensei em te escrever uma carta e a escrevi mentalmente, agradecendo todo amor que tive dentro de mim, todo fogo que ardeu, toda água que brotou e que irrigou meus poros com leve aroma de felicidade. Escrevi e li, agradeci e encerrei sem dar queixa de tua covardia, de tua pouca hombridade, de tua desesperança. Depois rasguei dentro de mim a carta, queimei e dispersei as cinzas para que nada sobrasse daquele nosso amor porque eu estava diante da minha morte e nada valeria a pena ser guardado.

Vem sentar-te comigo Lídia, de Fernando Pessoa

Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento –
Este momento em que sossegadamente nao cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-as de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim – à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.

um poema sem título, de Alexandre Honrado

comportamento recluso:
a palavra quer ficar no ventre
da mãe palavra que lhe deu alento
de gritar. Os poemas secundinas
adiam o parto. São ocaso, luz fulcral
e fim! Dependem todavia
da palavra que em embrião
ficou embrenhada na sua timidez.
Sou mais o que penso e uso
Do que aquilo que escondo e tremo?

A palavra nasce – e liberta-me de mim!