são de ver

meus ouvidos são de ver: teus passos embalam as calçadas do meu peito e desmaiam os pés cansados. as janelas se fecham no fim da rua. meus ouvidos são de ver. teus olhos espiando por detrás dos meus olhos permanentemente inquietos, suspirados, olhos que gemem febres de quarta-feira. baila teu corpo nu enlaçado na mulher de seios pequenos; uma mulher de seios pequenos,  colo repleto de sinais que gritam constelações. ela serpenteia macia seus reflexos dourados. meus ouvidos são de ver: por dentro tua palavra de ordem delicada-mente desmancha no palato “m o r r a” no prazer que se anuncia.

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havia uma curva

havia uma curva, gotas prateadas cintilantes. cismas verdes penetravam o silêncio; havia uma curva e dentes que roçavam o lóbulo esquerdo. suaves fisgadas franziam a pele,  poros abertos exalando fino fio < desespero >. experimentava a curva, sentia a mistura.  aproximavam-se lóbulo e escápula em flagrantes deslumbres da memória. nunca mais haveria outra, nem tão curva. o ódio acompanhava a possibilidade da perda. atraentes rumores na escadaria, eles se deram. tilintantes se esfregavam, dois bichos. havia uma curva, um chão frio, ângulos retos que gemiam abafados pela sedução morna. havia uma outra curva dentro da curva, tenra e doce. a parede branca marcava o rastro da língua. a língua marcava o rastro da curva.