quem não viu passar as renas

bananeira

elejo a bananeira minha árvore de natal. sobretudo por gostar do verde das folhas no contraponto brasileiríssimo do ouro das bananas que também são enfeites comestíveis. não recuso os pinheiros e gosto muito deles por sinal, mas as bananeiras me parecem hermeticamente faceiras – quem nunca duvidou ter uma serpente escondida embaixo de suas palhas? prudente dúvida. por fim ou entre o começo e o que pode ser o fim, as bananeiras detém atenção das mentes despudoradas com fálico arcabouço da saciedade. sacia-me, sacia-te, sacia-nos. toda banana é uma forma de esplendor. a flor da bananeira desabrocha digna de uma ode, quiçá uma epopeia para fazer valer seu sabor sobre a maçã eleita musa na égloga do poeta. tantos são os argumentos de minha tese, elejo a bananeira árvore festeira do renascimento natalino. só sinto falta dos piscas – tantas vezes desejo cercar o abajour de piscas para vencer a tristeza (daí reformulo a gana com a hipócrita necessidade de reduzir os consumos inúteis de energia quando energia me falta). no que tange a perfeita alquimia, para as bananeiras melhor seriam pirilampos. já as renas nunca vi. nunca vi passar rena alguma, nem ouvi tilintar de sinos a meia noite. devia estar dormindo. tenho cultivado sambas embora nada saiba sobre o majestoso de sambar. sambas que pisam chão de terra batida e que não são menores que os cantos sob sinos (não fosse a discriminação do “hierarquicamente superior” sugerida pelos intelectuais). nem sei porque escrevi tudo isto para falar de uma festa para qual não ligo a mínima mas não deixo de comemorar (são os costumes, diga-se, e o respeito à mesa posta). o fato é que deixei voar as renas, dispensei a barba, o veludo e o saco de presentes (os tempos são outros); voaram os pirilampos para bem longe por causa da poluição e a bananeira, uma fileira de bananeiras ficou depositada no meu imaginário junto dos gatos que miavam no terreiro da chácara dos meus avós (que eram estrangeiros e que antes de tudo gostavam mesmo de pinheiros).

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MINHA FELATRIZ IDOLATRADA, de Fernando Arrabal

 

Sim, é uma depravação lamber o teu falo
Sim, é um horror infringir os meus princípios
Sim, é uma porcaria chupar o teu meato

Sim, é uma incongruência fazê-lo por amor
Sim, é uma insanidade engolir o teu esperma
Sim, é uma aberração inclinar-me sobre o teu sexo
Sim, é uma fraqueza abdicar da minha liberdade
Sim, é um sacrifício de saliva e de alma
Sim, é uma contradição sufocar-me de amor
Sim, é um absurdo curvar-me diante do teu ventre
Sim, é lascivo devorar o teu ceptro
Sim, é uma loucura que a minha boca seja uma vulva
Sim, é um pecado grave sendo também condenado por Deus…
…por todos os séculos e séculos.Adoro ser eterna para o teu tempo e o teu cio
Adoro acolher-te no meu nicho de seios
Adoro invadir o teu ânus com o meu dedo
Adoro antecipar os teus desejos mais perversos
Adoro sugar-te imóvel «à pleine bouche»
Adoro acariciar-te ao mesmo tempo os gémeos
Adoro ser a tua droga do mundo mais imundo
Adoro que o meu cu seja parte do teu céu
Adoro que dites os teus caprichos no meu corpo
Adoro que a minha língua se cubra de pimenta
Adoro que a minha boca te embale íntima
Adoro que mergulhes a tua faca no meu véu
Adoro provocar a explosão do teu suco
…por todos os séculos e séculos.

Sinto-me realizada quando me baixo ao teu sexo
Vejo-me desejada quando aqueço a tua adaga
Julgo-me humilhada pelo meu ritmo lascivo
Adoro que dirijas a minha nuca com as tuas mãos
Torno-me borboleta com o teu músculo febril
Encanta-me a impudícia de o beijar sem fim
Regozijo corrompida por atiçar o teu vício
Deixo-me acanalhar, com a tua flor tocando na minha glote
Perco-me quando roço a negrura do teu poço
Excita-me seguir a regra do teu êxtase
Enlouquece-me fumar com o teu filtro do amor
…por todos os séculos e séculos.

A tua espada ressoando…. tocas o sino.
Menear-te entre os meus lábios… vives em glória.
Envolvido na minha roçadura… avistas paraísos.
Entrançado de carícias… sonhas o impossível.
Palpitando animal… voltas ao nirvana.
Pelo céu da boca… percorres o mistério.
Penetrando a minha cara… capturas a imagem.
Esperando o êxtase… atrása-lo sempre.
Primeiro o teu rabo… treme o universo.
As lágrimas de gozo… chegam gotejando.
O teu néctar rociado… rega a minha garganta.
Comungamos unidos… os dois e para sempre
…por todos os séculos e séculos.

Bolonha, noite de 6 a 7 de Jetas de 136 da E. P. (31-I a 1-II-09 «vulgaris»)

FERNANDO ARRABAL (trad. miguel de carvalho, in TELHADOS DE VIDRO 15, 2011)

a distância

I.

vazia retorna. Recolhe os trapos

tece fina trama de lembranças

colore dores puídas.

O dia ainda não despertou.

Ela teima na espera. Por dentro um som de ave,

Balbucio morno, véu que descortina

lentamente.

 

II.

Ardem sóis.

(                                                 )

– a distância acelera a ausência da alma –

quase se esvai convulsiva:

desesperada, úmida

sal cristalizado sobre a pele

ouvidos proclamando desespero

a falta que faz o voo.

Sobre o mar em (a) braços que nunca vieram.

Cinco breves momentos de maio, de Alice Vieira

Cinco breves momentos de maio

1

naquele tempo toda a cidade ardia e nós
ardíamos com ela mas sabíamos
que havia de chegar urna noite
em que as amarras (ou a pátria tanto faz)
seriam mais fortes e entraríamos
em silêncio no quarto
inventando palavras tão transparentes para a nossa vida
que hoje tenho dificuldade em encontrá-las
para as colocar em seus devidos lugares

tínhamos então a idade
de tudo o que nos acontecia pela primeira vez
protegidos pela sombra dos castanheiros de maio
e ainda que por breve tempo chegámos a acreditar
que um dia nos iríamos de novo amar ali
exactamente ali
entre o rio as pontes as estátuas
a praia que roubávamos ao asfalto
onde os dias pareciam sem desvio

e a dona do hotel a prometer-nos
domingos de sol

2

desse tempo recordo um retrato e dois nomes
que então jurámos dar aos filhos que um dia tivéssemos
e que por isso mesmo nunca demos
aos filhos que tivemos

desse tempo guardo as noites
que deveriam ter sido apenas de um deslumbrado amor
e que não foram
derramando-se em cicatrizes que se deitaram no meu corpo
e nele fizeram sua escondida e permanente morada

enquanto cuidadosamente guardei todos os teus vestígios
para te fazer ressuscitar num terceiro dia
mais conveniente

3

era apenas um retrato
que um fotógrafo de ocasião nos tirou
e tinha a história de não ter
história nenhuma
(já li uma frase assim no Alberto Caeiro
desculpa)

lembro-me: nem sequer olhávamos um para o outro
embora o fotógrafo se tivesse esforçado muito
em nos mostrar felizes
mas ele não podia adivinhar que a hora da partida
se desenhava no fumo dos cafés que bebíamos
ao som triste da Anne van der Lowe no jukebox
das gares onde adiávamos diariamente
os funestos rumores do esquecimento

talvez tivéssemos estremecido um pouco
e por isso os nossos rostos ficaram
levemente desfocados
como se naquele momento tivéssemos encontrado a mais
eficaz palavra
de despedida

4

o que verdadeiramente me dói não são as palavras
que nestes anos todos ficaram por dizer
arrumadas entre os medos que não gritámos juntos
e os sonhos que não transpirei na tua pele

o que verdadeiramente me dói são os silêncios
que nunca habitámos do mesmo lado
porque o silêncio só pode ser partilhado
com aqueles que amamos até à loucura
só ele é a dádiva perfeita que não pede mais nada
a não ser um mesmo lugar para deitar a cabeça
e esperar que a madrugada lentamente desfaça
todos os segredos e nada mais seja preciso
para voltarmos a ter vinte anos mesmo que
os vinte anos tenham morrido para sempre
na cidade em chamas

nunca os meus olhos guardaram imagem mais nítida
que a tua entre os maços de gitanes
e a poeira de maio

no minúsculo quarto em que tentámos acreditar
no futuro que não iria ser o de ninguém
e no entanto tu olhavas para mim e dizias este
será o lugar onde havemos de morrer
e os nossos amigos marcavam encontros
para as tardes em que estaríamos ali sozinhos
à lareira de pacíficos invernos familiares

hoje sei
que te devia ter colado então ao meu silêncio
para que levasses no fundo dos teus olhos
a cor dos meus
ainda que totalmente despidos de ti
mas não fui a tempo e alguém junto a nós disse
as pequenas mentiras mordem até ao fim
e eu comecei a falar de outras coisas
mas foi isso tenho a certeza que nos matou
por isso te peço agora ajuda-me
a não pecar outra vez do mesmo modo
para que os deuses não se cansem
de voltarem a pôr tudo no lugar certo

olha para mim não tenhas medo dá-me
camélias cravos azáleas o que houver
descobre a única palavra verdadeiramente nossa
a única a poder ensinar-nos ainda o rasto

das noites em que a cidade era um braseiro
e nós ardíamos no lume das pedras e das nossas línguas
enquanto os pardais se confundiam na vidraça
das janelas que escancarávamos por maio fora

e de repente eu disse os nossos filhos
vão ver um dia este retrato e querer saber
o que aconteceu
– mas nesse momento em que já dificilmente
se articulavam as palavras
tu olhaste as horas e desceste as escadas em silêncio
porque assim eu tinha pedido que fizesses

e a dona do hotel a prometer-nos
para além de domingos de sol
despedidas breves e indolores

5

a porta entreaberta a prolongar
os teus passos os castanheiros a cidade em chamas

a minha voz a prometer-te uma carta
(prometo sempre cartas a quem se perde
entre o meu corpo e os patamares das escadas
de países desconhecidos)

mas tu já não ouviste ou então
tudo tinha deixado de fazer sentido

e eu a pensar ainda
uma palavra tua e eu serei salva

os tolos são

220920112506

os tolos, do lado de cá do Atlântico, por Penélope Martins
Os tolos são voláteis,
aquarelam cartas de amor, tamborilam lembranças banais
tecem futuros perfeitos.
Os tolos são pobres coitados,
imploram mais uma palavra, rogam um abraço
suplicam outro beijo. Os tolos não sabem dizer adeus.
Alienados, desajustados, sofredores
Os tolos sofrem e riem, sofrem e riem… Choram
embocaduras.
Os tolos não tem saída. Miúdas esperanças
desintegram espaços,
trocam-se lençóis para pousar fresca fronha de lavanda.
Tolos afrontam delicada tolice.

 

 

os tolos, do lado de lá do Oceano, por Alexandre Honrado

Os tolos são sublimes.
Leem as cartas do despudor de outros
Tolos. Mesmo quando são analfabetos.
Rodopiam nos seus momentos descansados.
Sentados sobre a boca das palavras
Impedidas que usam como futuro impensado.
Os tolos são sóis adiados.
Mendigos do beijo que viram passar.
Os loucos são súplicas a voar.
Devia haver um tolo em cada cabeça e em
Cada cabeça um turbante fulvo
E em cada turbante fulvo um correr de rio
Sem espaço.
Não interessa o espaço,
Mas aqueles que ficam no abraço.
Os tolos ficam.
Nos nós.
Os tolos são.
Somos.
Nós.
Sós.