Poema fora de tempo, de Paulo da Ponte

O outono aproxima-se:

Tuas mãos de água
duas mãos azuis
e a areia por entre os dedos
de cima vem o sol
pousa nos ombros
nos ramos

o poema é inútil
se as mãos não pousarem
nos finos grãos
e os ombros não tocarem
os ombros.

 

* Paulo da Ponte; de Caldas da Rainha, Portugal.

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ladainha

ilustração de Marcos Garuti

Ó alma decaída, eivada em vícios, distraída pagã encharcada em vinho, mal-intencionada nos bons costumes e cujas curvas nuas se exibem para abajures enfeitados. Alma vadia, desapegada das coisas mundanas por ter tudo e precisar do pouco que ainda lhe resta. Alma clarividente, mística ateia reformada, corpo quente da alma lavada, escreve versos no café ao meio dia.

Ó alma tola, força da natureza, felino no cio, um desvario, negação de todas as certezas, sumo da nossa franqueza, imagem riscada no espelho da penteadeira. Vinde a mim, alma banida, purificai meus medos, dilacerai minha pele para sangria dos segredos, para correr o viço, o improviso, o imperfeito, o inexorável também o imbecil. A ti proclamo meus dias, ó alma delicada de pura transparência; a ti consagro minha vida, ó alma varrida dos sabores da culpa; a ti suplico até o último gemido, alma que sabe voar.

qualquer coisa

uma dose de qualquer coisa ) desde que venha com um bom beijo (

mas pode ser qualquer coisa mesmo  ( desde venha de banho recém tomado )

uma dose de qualquer coisa não vou nem escolher – desde que saiba sorrir pela manhã –

uma dose de qualquer coisa … desde que saiba fazer mimos e dengos…

uma dose de qualquer coisa : desde que provoque arrepios

desde que seja nada, desde que esteja nua, desde que se como crua

Vou-me embora pra Pasárgada, Manuel Bandeira

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.