fios de lã, para meu carinho Laura

doloridos fios de lã no fundo seco da última mala

fiquei ali, fitando resquícios de nossas últimas conversas

o alfinete atravessava a alça

a garganta sufocava o grito

os olhos diluídos perdiam o vulto

os braços vazios já não se reconheciam.

E não haveria volta,

não haveria ponto, nem fio, nem trama

os fios de lã apenas

dolorosamente macios

luzindo saudades no fundo escuro

da última mala

 

 

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sem calcinha

ilustração de Marcos Garuti

se não gosta de feijoada, se não aprecia bunda de mulata, se nunca tripudiou poças de chuva, se jamais desejou ser viúva, se não comeu rocambole de rolo, se disfarça quando alguém te encara no olho, se não sabe fazer caipirinha, se nunca saiu de casa sem calcinha, se acredita no progresso capitalista, se não tem medo do dentista, se não sabe cantar um samba, se nunca ficou com as pernas bambas, se prefere fazer no escuro, se não sai de cima do muro, se diz sim por educação, se acredita nos benefícios da privatização, se hoje você já olhou quantas calorias tem no biscoito, se nunca inventou desculpa pra ficar de molho, se tem cerimonial para tudo que faz, se foge do espontâneo desorganizado demais, se você viaja com guia mapa caderneta, se nunca vociferou a palavra buceta, se tem o fígado inchado de amargura, se disse um dia “era melhor na ditadura”, se tudo que eu disse não faz importância é bom me encarar com desconfiança

Hino a Pã, Fernando Pessoa

Vibra do cio subtil da luz,
Meu homem e afã
Vem turbulento da noite a flux
De Pã! Iô Pã!
Iô Pã! Iô Pã! Do mar de além
Vem da Sicília e da Arcádia vem!
Vem como Baco, com fauno e fera
E ninfa e sátiro à tua beira,
Num asno lácteo, do mar sem fim,
A mim, a mim!
Vem com Apolo, nupcial na brisa
(Pegureira e pitonisa),
Vem com Artêmis, leve e estranha,
E a coxa branca, Deus lindo, banha
Ao luar do bosque, em marmóreo monte,
Manhã malhada da àmbrea fonte!
Mergulha o roxo da prece ardente
No ádito rubro, no laço quente,
A alma que aterra em olhos de azul
O ver errar teu capricho exul
No bosque enredo, nos nás que espalma
A árvore viva que é espírito e alma
E corpo e mente – do mar sem fim
(Iô Pã! Iô Pã!),
Diabo ou deus, vem a mim, a mim!
Meu homem e afã!
Vem com trombeta estridente e fina
Pela colina!
Vem com tambor a rufar à beira
Da primavera!
Com frautas e avenas vem sem conto!
Não estou eu pronto?
Eu, que espero e me estorço e luto
Com ar sem ramos onde não nutro
Meu corpo, lasso do abraço em vão,
Áspide aguda, forte leão –
Vem, está fazia
Minha carne, fria
Do cio sozinho da demonia.
À espada corta o que ata e dói,
Ó Tudo-Cria, Tudo-Destrói!
Dá-me o sinal do Olho Aberto,
E da coxa áspera o toque erecto,
Ó Pã! Iô Pã!
Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã Pã! Pã.,
Sou homem e afã:
Faze o teu querer sem vontade vã,
Deus grande! Meu Pã!
Iô Pã! Iô Pã! Despertei na dobra
Do aperto da cobra.
A águia rasga com garra e fauce;
Os deuses vão-se;
As feras vêm. Iô Pã! A matado,
Vou no corno levado
Do Unicornado.
Sou Pã! Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã!
Sou teu, teu homem e teu afã,
Cabra das tuas, ouro, deus, clara
Carne em teu osso, flor na tua vara.
Com patas de aço os rochedos roço
De solstício severo a equinócio.
E raivo, e rasgo, e roussando fremo,
Sempiterno, mundo sem termo,
Homem, homúnculo, ménade, afã,
Na força de Pã.
Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã!

 

 

 

fonte: http://www.revista.agulha.nom.br/fpesso41.html

(sem título) poema de Mário Castrim

Deste ponto do hotel vê-se qualquer coisa
que logo desde o início se entendeu
não poder ser outra coisa além do Cabo da Roca.
Daqui donde estou se vê que o Cabo é
perfeitamente ocidental o mais
ocidental possível.

Mais do que ele, só os nossos olhos.

Eles, para quem a terra não acaba nunca.
Eles, que tocam o ponto exacto onde
um sol de fogo prova que ela é redonda.

A única diferença é o farol. Mas se fores tu
de noite a olhar o mar, os barcos
podem ir à confiança.

Poema inédito de MÁRIO CASTRIM
— hoje, 15 de Outubro, completam 10 anos de sua morte

devo_ser

Interrompe a voz dela como um estampido (talvez a própria pólvora):

– Devo ser santa ou puta, devo ser dama ou de rua, devo ser dele ou tua, devo ser casta ou nua: devo, devo, devo, devo, DEVO! Devo ser uma exata figura?

xilogravura_Luciano Ogura Buralli

E nem respeita a palidez que se instaura na face transfigurada:

– Digo que sou santa no peito abaixo da garganta, mas também sou devassa puta abaixo da linha que circunda a cintura; nunca na tua cama terás tão nobre dama que veio da rua, nem sou menos deles do que serei tua; ainda, assim, esgotada de tanto amor e pisoteada por uma paixão crua, sou a mais casta mulher quando me estendo na cama, nua.

Juntam-se pertences antes da revoada pela noite escura, pavorosa de tão livre.

Capítulo XLIII, Dom Quixote de Miguel de Cervantes

Sou marinheiro de amor,
E em seu pélago profundo
Navego, sem ter espe’rança
De encontrar porto no mundo.

 

E vou seguindo uma estrela,
Que brilha no céu escuro,
Mais bela e resplandescente
Que quantas viu Palinuro.

 

Eu não sei aonde me guia,
E a navegar me costumo,
Mirando-a com alma atenta,
Cuidoso, mas não do rumo.

 

Recatos impertinentes,
Honestidade no apuro,
São as nuvens que ma encobrem,
Quando mais vê-la procuro.

 

Límpida e lúcida estrela,
Só teu clarão me conduz!
Extingue-se a minha vida,
Em se extinguindo a tua luz.