há uma carta – para minha amiga querida Alice Vieira

Escrevem de longe, lá do estrangeiro, há mesmo uma carta esperando por ti. Murmuram segredos sem importância, aconchegos em selos distintos, na caixa uma carta implora por ti. Uma dona de casa admira, arredonda os “as”, prolonga os “pês”, enfeita-te! há uma carta que range por ti. Enfermos do coração, artistas de rua, bombeiros, estudantes e os não esquecidos donos de barbearia, lá uma carta sangra por ti. Caminhos desfeitos, mãos desoladas, há um maço de tabaco que pensa arder e uma carta que te fita as pálpebras azuis. Pés acariciam a face do chão árido, panelas fervem o peixe no caldo farto, lenços bordados acenam provocações, a caixa de correio clama por ti. Não seriam as horas deles horas também tuas? Não seriam as linhas traçadas tentativas de afago? Não seriam as inundações de lágrimas a mais rebelde alegria?
Escrevem de longe, lá do estrangeiro, há mesmo uma carta esperando por ti.

casa comigo, amor

casa comigo, amor, neste instante em que não existe nada mais de importante no mundo, já os homens não estão em guerras, a janta está pronta, os meninos estão na cama e nossos trocados valem ouro. casa comigo, amor, lá fora arde o sol em plena noite escura, aves cantam em coro a bossa mais bonita, janelas dormem abertas e não há sinal algum de partida. casa comigo, amor, tenho a impressão de vida farta, haverá vinho, haverá queijo, haverá chocolate à vontade e a relva úmida, macia, servirá de amparo às carências. casa comigo, amor. casa comigo, amor. casa comigo, amor. nunca deixarei de dizer coisas no teu ouvido.

série “POST IT-me” – provocações literárias de Penélope Martins