O Beco de Nossa Casa, de Evaristo Carriego

No eres familiar como una cosa

que fuese nuestra, solamente nuestra;

familiar en las calles, en los árboles

que bordean la acera,

en la alegría bulliciosa y loca

de los muchachos, en las caras

de los viejos amigos,

en las historias íntimas que andan

de boca en boca por el barrio

y en la monotonía dolorida

del quejoso organillo

que tanto gusta oír nuestra vecina,

la de los ojos tristes…

**

És familiar como uma coisa

que fosse nossa, somente nossa;

familiar nas ruas, nas árvores

ao longo da calçada,

na alegria buliçosa e louca

dos rapazes, nas caras

dos velhos amigos,

nas histórias íntimas que andam

de boca em boca pelo bairro

e na monotonia dolorida

do queixoso realejo

que nossa vizinha tanto gosta de ouvir,

aquela dos olhos tristes…

nota: CARRIEGO, Evaristo, Poesia Herege, Santa Catarina: Editora da UFSC.

aceno

fotografia desbotada em escultura de Juliana Bollini

reluzia  flor amarela

a beira os pés dela

luzia aberta a janela.

Luzia e a flor amarela

de amor aos pés dela

manhãs claras aquelas!

mais tarde, a sentinela,

cerrada jazia janela

desmanchar de aquarela…

secou a flor amarela

partiram de si os pés dela

e a dor calou funda, sem graça.

(A ceifeira) poema de Fernando Pessoa datado de dezembro de 1924

 

Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anônima viuvez,
Ondula como um canto de ave
No ar limpo como limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.
Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões p’ra cantar que a vida.
Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente ‘stá pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ordenando!
Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! ó canção! A ciência
Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!