rendas açucaradas

– Rendas Digitais de Cristina Suzuki –

 

O som do vento atravessa a estrutura de concreto e permanece soprando ininterruptamente dentro dos ouvidos de Rita. Aos poucos da rajada um tufão capaz de ruir o cimento frio, eriçar a estrutura metálica e moer os pavimentos. Os buracos ocos formando rendas com leves movimentos, desmoronando em desenhos ovalados, perpetuando ondas, tecendo pensamentos profundos em Rita. Rajadas soprando ao longe na dor que Rita insistia. Não se sabia feliz em concreto aparente, vidros verdes, poltronas estofadas em couro branco, almofadas sem cor e o chão reluzindo inerte. Mares encaixotados em recipientes perfeitos. Tentava buscar razões de convencimento, mas as rendas recorrentes em seus pensamentos, tecidas pelos ruídos dos ventos que varriam sua alma para longe, doíam-lhe o mais agudo querer. Os olhos vagavam perpetuando ondas, leves movimentos, desenhos ovalados, ilusões opacas e ocas.

Manhã seguinte partiu para ver Jorge na Cidade de Origem. Vestia uma saia branca rodada com rosas, miúdos botões brotando de delicados galhos verdes. Cavou no peito as hóstias comungadas no Convento de Nossa Senhora do Monte. Pequenas hóstias açucaradas que volteavam em rendas ruindo sobre a língua, perpetuando ondas, tecendo os pensamentos de Rita que já descia a ladeira numa cadência de peito aflito (leves seus movimentos). Rita na ladeira como agulha em bordado, de um lado para outro e de outro para um de novo, o novo, novamente… Transbordava água salgada e um sorriso persistente.

A ladeira íngreme palpitava a fachada de tijolos descascados que apontavam ao longe, alguns esfarelados outros prestes a desabar. Bacias de barro com florinhas vadias, sem nome, sem passado, sem destino algum. Rompia uma palmeira imperial na paisagem de folhas verde-escuro a contrastar o céu e o mar em unidade de imensidão.

Rita abriu o portão sem fazer alarde, deixou os sapatos no tapete de cisal logo a porta de entrada, como de costume, caminhou dominando rajadas de vento, sopros de misericórdia, concretos escarnados, promessas vazias, duas laçadas e um ponto alto a tecer pequenos desenhos ovalados, movimentos leves, rendas impressas na pele de Rita e já desfeitas nas hóstias comungadas.

Ladeiras desmanchavam a Cidade de Origem em fluxo contínuo para o abraço de Jorge.

Jorge deixou por moldar a argila, ergueu a cabeça com os olhos cerrados deixando o perfume de Rita conduzir seus passos até que suas mãos embalassem as mãos dela, a linha da cintura, o beijo no pescoço, toda saudade.

Abraçaram-se, beijaram-se, deitaram-se desenhando movimentos envolventes, mãos vigorosas em ondas cintilantes, caminhos ovalados pelo corpo, rendas esculpidas com os dedos, pensamentos diluídos no sentir inteiro, ainda quente o algodão da rede depois do meio dia.

– Quero-te meu pecado original e todas as confissões jamais lhe alcançarão a graça. – Arrasto-me cego.

Abraçaram-se, beijaram-se e invadiram-se mutuamente.

A rede estendida em nó de algodão sôfrego abrigar o gancho de metal que sustentava ritmo macio. Rita levou o olhar para a coluna no jasmim que cocegava até o telhado, suspensas uma, duas, três telhas para caleidoscópio de estrelas.

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escrito no espelho

duas águias solenes: o macho suporta o peso da fêmea enroscada sob suas asas, a fêmea alimenta o macho soprando vida dentro do seu bico. lá fora o mato está alto e já passa a altura dos nossos joelhos. uma pedra vermelha reluz entre as ervas daninhas. uma pedra vermelha é toda crueldade atirada sobre o mundo. um homem suspira aliviado enquanto saboreia os beijos de sua amada. um pastor colhe seu rebanho. um poeta dá de comer aos pássaros. um príncipe se prostra aos pés da idolatrada. são dias de sustentação plena, os sonhos do guardião do mundo.

balada de um amante solitário

estendida tua pele convida plácido dourado morno abraço (perambulava a fome, castigava a sede, maltratava o vazio); o cheiro do sal saliva a boca ao toque convida  – quase serena quase tímida quase grata – estendida tua pele esboça sorriso malicioso envolvente tal mecha de cabelo cisma curva do pescoço (ósculo desvelo de erupção instantânea); estendida tua pele embriaga sentidos festejam cores ardores exalam sabores ranhuras tenras (grãos de pólen desassossegam narinas brotam nos olhos imensos girassóis); o amor jamais confortável no sacrifício de plena entrega da tua pele alva e estendida: aportei-me em mim, doce promessa para dias melhores, aportei-me em mim, fui flagrado suspenso no ar ao tempo exato em que faria proposta

 

fotografia de José Espada Feio