romãs em poços de azul turquesa

“Romãs” – aquarela de Gonzalo Carcamo


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Notei no teu pulso uma poça turquesa resplandecer magnífica pedra rara; então me detive no contrafluxo do desejo para não ser flagrado de joelhos aos teus pés em exame minucioso das mesmas marcas nos tornozelos, atrás dos joelhos… Tua pele tão levemente rosada estendida no gosto aveludado do perfume. Teus olhos, ah os teus olhos meu amor, implorando em mim todas as insanidades (mesmo as mais temidas, as já esquecidas, as trancafiadas em quarto escuro).

Naquele exato instante, o pensamento mapeava tuas penínsulas, ramas azuis de turquesa, no aquoso branco corado, ápices de adrenalina.

O aroma cítrico das romãs trazia um lirismo oportuno à cena que se pronunciava entre nós. A mesa rústica de madeira se contrapunha com a delicadeza das tuas mãos, os dedos esguios, as unhas lixadas com perfeição.

Tanta beleza assim ornada apenas por um mísero colar de fraudulentas pérolas, um vestido preto escorregadio ondulando tons alaranjados das lamparinas.

Naquele exato instante, entre as penínsulas e as romãs, percebi em ti uma ausência apavorante de medo e o quanto isso provocava em mim um desatar ininterrupto de sentidos.

Segui modos de impassível, a respiração ofegante e as veias dilatadas denunciavam-me o oposto.

Não restavam regras de etiqueta para teu banquete, ah meu amor quantos quereres em mim, beijar as palmas das tuas mãos no tom turquesa que eleva ao sumo da carótida, bagunçar tua cabeça e escorregar sem rumo entre as sardas das tuas costas.

Afastei-me em devoção. O luar desenhava a sombra das tuas pálpebras, o rímel negro sublinhava teu alvoroço.

Alinhei-me entre teus ombros e suspendi tua cervical com um beijo úmido enquanto teus cabelos seduziam curvas, ondas, cachos, pontas agudas de navalha a provocar arrepios de pescoço que se deixa nu, exposto.

Desajustei-me reconhecendo em ti a minha própria imagem; em poucos segundos desconstruí expectativas e guardei a posse cúmplice do presente.

Íntimos, permanecemos no tempo sem tempo.

Folheei-te inteira, mapa que se desdobra com cautela, longilínea e latejante, não me permitiria perder mares, ares, rotas, cavernas e tesouros.

Notei em ti bem aventurança ao se deitar sobre os vincos profundos do tampo de madeira, hálito secreto de vinho, recebendo de mim a nau imperiosa de conquistador vulgar que usurpa sem piedade o tracejar das tuas linhas, tão bem escritas.

Entrei nos teus pensamentos, invadi teu sangue – ah meu amor como ritma lindo teu peito – inteiro em ti, colhendo da tua vida tudo que eu sempre desejei e aquilo que eu ainda viria a desejar mesmo que nem de ti soubesse a existência.

Flagrei-me perdido no prazer, amando-te, adorando-te, venerando-te cada gemido.

Nos nossos risos brincavam crianças crescidas, abandonadas ao pé de uma árvore que nos oferta o tudo do nada que precisamos.

Seduzido pelo descompasso do vestir da blusa, retoques de batom, logo eu implorava beijos iguais àqueles que já cravavam força nas minhas lembranças.

Embrenhei-me em romãs maduras: do sumo à semente. Tudo leve, etéreo, tempo de colheita.

Inverti-me na espera do regresso. Queimei até o último anseio do óleo de lamparina.

Brumas e Chuvas, de Baudelaire

Ó inverno, ó fim de outono, ó primavera em lama,

Dormidas estações! A minha alma vos ama

Por cobrirdes-me assim cérebro e coração

De sudário brumal, de tumba e de ilusão.

 

Nesta grande planura em que o Austro se derrama,

Noite em que o catavento é uma voz rouca e brama,

A minha alma, melhor que na morna estação,

Suas asas de corvo abrirá na amplidão.

 

Por certo ao coração, todo coisas esquálidas,

Sobre quem desce há muito o frio das nevadas,

Rainhas da atmosfera, ó estações decoradas,

 

Nada é mais doce que as vossas trevas tão pálidas,

Se a dois e dois por noite, após um triste ocaso,

Dormimos nossa dor por um leito de acaso.

malagueta

– “nascimento”, fotografia e escultura de Juliana Bollini

Sonham sonhos que sonham corajosos, mas antes os resistentes. Os tons vibrantes de vermelho tomam a sopa cinza que escorre das grossas nuvens de chumbo, atentos são seus olhos para amparar os dias sangrentos.

Suas janelas se preenchem de brilho encarnado, seus cílios encantam curvos, ondas que quebram duras guerras.

Sonham sonhos de campos de Marte, batalhões inteiros rendidos aos ais que dos suspiros se escutam, tão terno o estender de braços e as mãos repousadas, depois, sobre o peito.

Sonhos flamejantes de tambores e trompetes triunfais compelem passagem.

Sorvendo a alegria para enlaçar as pernas no baile rubro, brumas lascivas envolvem as bailarinas de saias lépidas. Um broche abaixo do ombro esquerdo faz voar a rainha das libélulas. Vestes de macassitas.

Penumbras de silêncio retumbam sonoras demais. Suportam a omissão, compreendem a usura do blefe, preenchem de ternura as ausências que se enamoram deles com ares de esposas depressivas, pesados xales de franjas negras sombreando os tacos castanhos de madeira que são encerados às quintas, às sextas, ao compasso frígido dos dias.

Alguns são destemidos e ousam um salto até quando olham absortos o céu pesando sobre suas cabeças. Os pés no fundo do poço.

Mascam pimenta de cheiro, pequena que é a menina, picam dedos de moça, acrescentam cumari, brindam malagueta, colorem jolokia, cavalheiro habanero, o caldo quente chili, recheiam a cambuci, salpicadas de jalapeno, no regar de tabasco.

“Dar-te-eis o reino!” Se houvesse então o Supremo, assim Ele declamaria em homenagem a estes uns.

Refogados no azeite, polvilhados com flocos de milho. Comem com as mãos o cuscuz, o pão, os talos de rúcula, nos tomates cravam seus dentes. Dispensam as boas maneiras. Gostam da comida quente.

Entoando o cantar do pouco importa viver sem perder a cabeça, ombros sobrepujantes de ritmo e quadris embriagados de vinho tinto. São eles.

Lá fora, lavaram as calçadas de amargura e toda água pútrida nutriu faminta boca de lobo. A rua esbravejou ressentida, crateras doídas sangraram suas esquinas, mas eles continuaram o passo forte do passo seguinte.

Sofrem prantos esfuziantes. Choram lágrimas volteadas que lhes contornam a face como adornos prismáticos de uma fatal alegoria. Sofrem se arrastando nas pedras das ruas, mas nunca deitando por elas seus pedaços.

Sofrem inteiros e armam ressurgir nas próprias conjecturas sobre bem e mal que eles fazem a si mesmos.

Amam sem reserva porque vislumbram da vida o último instante. Não julgam certos, tampouco errantes. Bailam seus corpos doloridos e compassivos, tal veludo cravado impiedosamente por unhas afiadas com permanência cálida, tépida, atraente.

Amam sem pudores frente à janela aberta para a luz da lua; afastam as pernas e tocam o sexo orquestrando mãos engajadas de ritmo. Cavam fundo a dor aguda que lhes estilhaça as pobres tolices humanas, os absurdos da vaidade, as insanidades da mente orgulhosa.

Afiam-se lâminas no corte valoroso da carne.

Alguns se contorcem envergando a espinha dorsal num arco que atira ao longe cada pluma flecha. Outros gritam felinos. Uns são tantos.

Deixam vir o gozo.

Molhados em seus côncavos, colorem seus lábios os beijos de sal. O ventre exposto guarda gotículas de suor que mais parecem as bolhas dos sonhos de Vishnu. Fulgurantes tremores.

No prazer revigoram a visão sublime da morte. Sabem-se no nada o nada que são; nada mais implica aquela bolorenta escala de valores do mundo. São as coisas do mundo mundanas e eles não são rasos (nem profundos). São.

Ardência. A malagueta.

De par em par, desgarrados ou em pequenas multidões de loucos desvairados, rumam ao alto o flagrante movimento de contemplar o ridículo no ridículo que se reconhecem.

todas as horas

todas as horas são tidas
horas passadas, horas sofridas
horas agonias sinistra fantasia
horas que a hora não passa
horas frias de frágil desgraça
cala prosa, escassez de poesia
todas as horas são tidas
horas poucas, horas moucas
vozes roucas, camas vazias

A Mosca Azul, de Machado de Assis

Era uma mosca azul, asas de ouro e granada,
Filha da China ou do Indostão.
Que entre as folhas brotou de uma rosa encarnada.
Em certa noite de verão.

E zumbia, e voava, e voava, e zumbia,
Refulgindo ao clarão do sol
E da lua — melhor do que refulgiria
Um brilhante do Grão-Mogol.

Um poleá que a viu, espantado e tristonho,
Um poleá lhe perguntou:
— “Mosca, esse refulgir, que mais parece um sonho,
Dize, quem foi que te ensinou?”

Então ela, voando e revoando, disse:
— “Eu sou a vida, eu sou a flor
Das graças, o padrão da eterna meninice,
E mais a glória, e mais o amor”.

E ele deixou-se estar a contemplá-la, mudo
E tranqüilo, como um faquir,
Como alguém que ficou deslembrado de tudo,
Sem comparar, nem refletir.

Entre as asas do inseto a voltear no espaço,
Uma coisa me pareceu
Que surdia, com todo o resplendor de um paço,
Eu vi um rosto que era o seu.

Era ele, era um rei, o rei de Cachemira,
Que tinha sobre o colo nu
Um imenso colar de opala, e uma safira
Tirada ao corpo de Vixnu.

Cem mulheres em flor, cem nairas superfinas,
Aos pés dele, no liso chão,
Espreguiçam sorrindo as suas graças finas,
E todo o amor que têm lhe dão.

Mudos, graves, de pé, cem etíopes feios,
Com grandes leques de avestruz,
Refrescam-lhes de manso os aromados seios.
Voluptuosamente nus.

Vinha a glória depois; — quatorze reis vencidos,
E enfim as páreas triunfais
De trezentas nações, e os parabéns unidos
Das coroas ocidentais.

Mas o melhor de tudo é que no rosto aberto
Das mulheres e dos varões,
Como em água que deixa o fundo descoberto,
Via limpos os corações.

Então ele, estendendo a mão calosa e tosca.
Afeita a só carpintejar,
Com um gesto pegou na fulgurante mosca,
Curioso de a examinar.

Quis vê-la, quis saber a causa do mistério.
E, fechando-a na mão, sorriu
De contente, ao pensar que ali tinha um império,
E para casa se partiu.

Alvoroçado chega, examina, e parece
Que se houve nessa ocupação
Miudamente, como um homem que quisesse
Dissecar a sua ilusão.

Dissecou-a, a tal ponto, e com tal arte, que ela,
Rota, baça, nojenta, vil
Sucumbiu; e com isto esvaiu-se-lhe aquela
Visão fantástica e sutil.

Hoje quando ele aí cai, de áloe e cardamomo
Na cabeça, com ar taful
Dizem que ensandeceu e que não sabe como
Perdeu a sua mosca azul.