chocolate

Ela sorriu para mim um riso honesto e amplo, deixando correr pelos lábios suas intenções sedutoras; naquele sorriso eu morria me revirando por dentro mil vezes e outras tantas mil ainda anunciavam chegada. Abracei aquele corpo livre de todas as mazelas do mundo, o coração prostrado aos pés dela, descompassado.
“Deve estar cansada.”
“Sim (e ela sorri novamente festeira), estou mesmo muito cansada da viagem e também com baita fome”.
“Vou providenciar algo para saciar a fome também deixar que você descanse um pouco.”
Pela janela a tarde coloria as velas dos barcos que vagavam suavemente pelo canal. A casa acolhia nossos segredos entre os livros encontrados a esmo.
Largou a bolsa de viagem ali mesmo na sala e folheou o romance sempre presente na minha mesa; procurou nas páginas e começou a dizer em voz alta: “as pessoas que enrubescem não prestam para nada.”.
“Ernest Hemingway é irresistível na sua capacidade de expressar o demasiadamente humano.” Depois oscilou continuando: “Gostaria de um banho, agora”.
Ela se refazia com vários banhos ao longo de um mesmo dia, umectando a pele com óleos adocicados que imploravam colheita. Exalava um frescor e um encantamento, no semblante sempre o desenho de um bom humor inabalável.
Mesmo em inebriante lirismo apaixonado, não resisti a um olhar profundo quando ela avançou pelo corredor. O ritmo cadenciado dos quadris conduzia meu desejo. Usava um vestidinho com pequenas rosetas vermelhas num fundo verde escuro que lhe exaltava a pele, um decote em v pronunciado e ajustes ao redor dos seios, na beira pequenas rendas roçando os joelhos.
Despiu-se dos saltos na porta do quarto e deixou que eu observasse o desenlace do vestido com toda minha sofreguidão. Continuei imóvel e senti um ânimo absoluto me percorrer as veias. A visão dela tatuada na retina. Quase nua seguiu para o banho me encharcando de paixão. Busquei uma taça de vinho, preparei uma pequena bandeja com figos e um farto pedaço de chocolate.
Avistei triunfante meu roupão de chambre passeando em notas de amêndoas. Vestida de mim convidava para que eu vestisse sua pele.
“Passarei a noite com você, querida?” Perguntei em tom afirmativo.
“As noites, os dias, as noites e mais os dias. Não será melhor assim?” E ela me arrebatou novamente com o sorriso que penetrava a minha alma junto daquele olhar calmo, confiante na entrega.
Depois segurou com as duas mãos um figo e rompeu a casca abrindo-o completamente. Mordeu a carne vermelha e suspirou o gosto da sua fruta preferida, fechou os olhos num transe.
 “Quero um beijo seu assim, amor.”
“O chocolate?”
“O chocolate fica bem para depois. Guarde junto do seu robe de chambre…”
Aproximei-me com cuidado, enlacei a cintura dela atendendo aos vagarosos detalhes, aspirei naquele pescoço num torpor contagiante. Aspiramo-nos assim, com farta lembrança de outros dias e na necessidade plena de nos contaminarmos para o futuro. Colo, queixo, o leve toque dos lábios no calor das respirações aflitas.
Não sei ao certo o que ela me disse, se suplicante ou se imperativa, me envolveu com os braços e segurou minha cabeça com as mãos, depois colocou a ponta da língua no céu da minha boca e passearam cócegas pelo corpo todo.
Ergueu-se em mim uma perturbação deliciosamente irrecusável. Eu já sabia que haveria de morrer de amor quantas vezes fosse preciso.
Outros beijos seguiram mesas, poltronas, escadas e até mesmo as árvores recostadas na janela suspiravam entregues de amor por ela. Vagamos como estrelas na noite escura sussurrando promessas dançarinas em versos indecentemente belos.



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