manjar de coco

Leite morno e amido de milho até dissolver. Mexe Rosário com afinco, mais um cadinho de amido a dissolver bem. Despeja flocos carnudos de coco, deixa lá até que encharquem. Adoça com carinho e faz engrossar com chaminha branda, cortininha de renda balançando em tarde linda de primavera.

– Faz tanto calor aqui.

Abanando-se sem perder o ponto, Rosário despeja o manjar de coco suavemente nas cumbuquinhas de barro e cobre cada qual com uma porção de calda de ameixas pretas.

Depois descansa. Lava as mãos e a nuca, suspende a saia, senta na soleira da porta da cozinha com os pés tocando o terreiro. O chão batido apronta desenhos nos pés de Rosário e ela sorri.

Lá na mangueira, teima balançar, feito criança, no velho banco dependurado por boas cordas em mais alto galho. Rosário se atira contra as nuvens, para frente e para trás, as pernas alongadas no céu riscam o mais belo traço. As pernas lindas de tornozelos fininhos quase a sumir, os pés pequeninos. Para frente e para trás, as florzinhas do vestido escapando no ar, Rosário se entrega sem vigília e atormenta Bento, o vizinho que acabou de se mudar com a família.

– Óia eu aqui, Bento!

– Boa tarde, dona menina.

Bento foge o olhar para a ponta da enxada, cavucando um pouco mais o solo ressequido.

– Faz isso não, Bento. – Salta a menina Rosário num passo ágil de quem viveu subindo em árvores. – Deixa ajudar nisso, Bento. Bora ali buscar água no poço para molhar esse chão seco.

Bento não resiste nem aos tornozelos nem aos apelos de Rosário, pensa em dizer não, pensa em se afastar, mas a menina assanha com jeitos sempre tão faceiros e ares de insubordinação, levada, imprevisível. Bento pensa tudo e cala; cala sua boca com os olhos despejando desejo pela vivacidade de Rosário.

– A água do poço tá boa, morna, quer ver?

– Pare com isso, menina, tenho de trabalhar um bocado… Hei…

Atira água em Bento, novamente, novamente. Rosário sem segredos para os desassossegados olhos que a consomem, vai desenhando o corpo no vestido molhado. Na paleta de cores, Rosário tem cor de cravo nos cabelos algumas notas acima da cor de sua pele.

Bento cora e Rosário se aproxima, com as mãos molhadas enlaça o pescoço do moço:

– Refresca, Bento, faz calor aqui…

A terra subindo dos pés aos joelhos como finos raminhos, brotando do solo, deixando surgir altiva a flor: um pé de Rosário. Dentro dali, sem distração que ludibrie o apetite, o melhor dos frutos.

– Para com isso, menina.

– Que foi, Bento? Gosta de beijo, não? Tua mulher num beija?

– Ara, para com essa prosa, menina, é claro que ela me beija.

– Então, carece ficá com medo que ocê já sabe o que se faz.

– Isso num é certo, ara, a menina sabe que eu sô home casado, pai de família, sô.

– Tô incomodando ocê, Bento, to pedindo alguma coisa de arrancar pedaço?

Rosário se aproximou bem de Bento. Colou inteira ao corpo dele e debruçou sobre o peito. Assim de pertinho, Rosário parecia ainda mais miúda, pequena, frágil. Bento quis protegê-la com braços enormes a lhe rodear a cintura. Neste exato instante, as tangerinas se curvaram fazendo sombra numa leve bruma cítrica que embriagava os lados da plantação.

O cheiro da boca de Rosário era uma fatia de coco açucarado, a carne dos lábios macia, tenra feito ameixa madura.

O beijo dos dois desencadeou o canto alegre do bem-te-vi lá no pé de graviola.

Imitação das Águas, João Cabral de Melo Neto

De flanco sobre o lençol,
paisagem já tão marinha,
a uma onda deitada
na praia, te parecias.

Uma onda que parava
ou melhor: que se continha;
que contivesse um momento
seu rumor de folhas líquidas.

Uma onda que parava
naquela hora precisa
em que a pálpebra da onda
cai sobre a pupila.

Uma onda que parava
ao dobrar-se, interrompida,
que imóvel se interrompesse
no alto de sua crista

e se fizesse montanha
(por horizontal e fixa),
mas que ao se fazer montanha
continuasse água ainda.

Uma onda que guardasse
na paria cama, finita,
a natureza sem fim
do mar de que participa,

e em sua imobilidade
que precária se adivinha,
o dom de se derramar
que as águas faz femininas

mais o clima de águas fundas,
a intimidade sombria
e certo abraçar completo
que dos líquidos copias.

sobre os clamores das pessoas no mundo e os exagerados anseios de amparo e perfeição

– Querido, eu sou muito pior do que qualquer outro, sou um teatro mofado sem platéia, sou um filme ruim com baixo orçamento, sou um prato frio esquecido no forno, sou a penugem de bolor a incomodar. Ah, querido, eu não sou nada interessante, então é melhor que você me esqueça ou arranje coisa melhor para seguir nas boas utopias…

Alturas de Macchu Picchu, de Pablo Neruda

“Pedra sobre pedra, o homem, onde esteve?
Ar no ar, o homem, onde esteve?
Tempo no tempo, o homem, onde esteve?
Foste também o pedacinho partido
do homem inconcluso, de águia vazia
que pelas ruas de hoje, que pelas pegadas,
que pelas folhas de outono morto
vai remoendo a alma até o túmulo?
A pobre mão, o pé, a pobre vida…
Os dias da luz desfiada
em ti, como a chuva
sobre as bandeirilhas da festa,
deram pétala por pétala de seu alimento escuro
na boca vazia?
Fome, coral do homem,
fome, planta secreta, raiz dos lenhadores,
fome, subiu a tua arraia de arrecife
até as altas torres desprendidas?
Eu te interrogo, sal dos caminhos,
mostra-me a colher, deixa-me, arquitetura,
roer com um palito os estames de pedra,
subir todos os degraus do ar até o vazio,
esfregar a entranha até tocar o homem.”