poema sem título extraído de “As Flores do Mal”, Baudelaire

Eu te amo como se ama a abóbada noturna,
Ó vaso de tristeza, ó grande taciturna!
Amo-te, bela, embora em mim jamais te acoites,
Aparecendo assim, florão de minhas noites,
Irônica a juntar inacabadas milhas
Postas entre mim e o céu de estrelas tranquilas.

Disponho-me a atacar os teus flancos inermes,
Como ataca um cadáver a legião de vermes.
E eu amo tanto, ó fera, a que o furor constela,
Até a gelidez que te torna mais bela.

Misto Quente

Silêncio, por favor.

Luzes piscando lá fora. Noite escura e a solidão dos dias. Talvez fosse por isso que ainda marcava encontros com o amigo Jean, um chef de cozinha que entre outras coisas lhe preparava jantares soberbos. Quinta-feira, noite fresca de outono, seria bom um souflé de legumes e uma taça de vinho tinto. Jean era um cinqüentão convicto de sua solteirice, amava a boa vida, sabia ser gentil e desperdiçava talento com qualquer mulher que visse. Era uma boa companhia para deixar a vida passar.

Melissa saiu no trânsito afogada em cansaço; conservava sempre sua potente disciplina. Olhava o celular, passava batom, folheava o processo deixado no banco do passageiro, reclamava a falta de educação dos motoristas. Melissa era rígida. Unhas perfeitas em tom pastel, cabelo impecável, calça de linho azul marinho e camisa branca. Calçava saltos que anunciavam sua elegância. Falava francês, traduzia bem o inglês, estudava alemão, conhecia o mundo inteiro, não tinha problemas com dinheiro e já completaria quarenta no mês que vem.

A mesma estação tocava no carro a semana inteira. Música clássica criava atmosfera para agenda cheia.

De repente o desejo de ser outra. Aquele velho desejo de assumir que tudo aquilo era um baita engano.

Melissa mudou de estação.

“Silêncio, por favor, enquanto esqueço um pouco a dor do peito, não diga nada sobre meus defeitos, eu não me lembro mais quem me deixou assim.

Hoje eu quero apenas uma pausa de mil compassos para ver as meninas e nada mais nos braços, só este amor assim descontraído.

Quem sabe de tudo não fale quem sabe nada se cale, se for preciso eu repito, porque hoje eu vou fazer, ao meu jeito eu vou fazer: um samba sobre o infinito.”

Olhou para o céu negro e não viu nenhuma estrela por ali. Olhou para o espelho retrovisor e viu o azul ser invadido por lágrimas.

O sinal ainda amarelo, Melissa estancou. Atrás gesticulava o motorista pedindo que ela fosse, mas já era tarde. Daí ele não se contentou, manobrou, parou do lado direito do carro dela enlouquecido de pressa. Disse alguma grosseria.

– Motoristas de taxi são abusados, pensou Melissa.

Olhou de novo, querendo provocar o sujeito com cara de desdém.

Um homem de pele escura e barba cerrada, cabelos intensamente negros e olhos que pareciam pintados com kajal. Encarou Melissa com estranheza.

Melissa virou o rosto um pouco tensa. Notou o estreitamento da rua a sua frente, o sinal abriu, ela encarou novamente o taxista e deixou que ele tomasse a frente.

– Lindo. Meu deus que homem lindo é aquele.

A canção se repetia. Paulinho da Viola devolvia o ritmo ao sangue de Melissa. Um batuque de caixinha de fósforos, um amor descontraído, um infinito para vislumbrar. Era tudo que ela mais queria.

Ele deu seta, virou à direita, Melissa o seguiu. Nem sabia mais o que estava fazendo. Virou esquerda, direita, seguiu em frete, aguardou descer o passageiro.

O taxista percebeu a intenção da moça e acelerou mais um pouco. Ela avançou, deu seta para ultrapassá-lo. Ele encostou quase na entrada de um boteco, abriu o vidro e gritou:

– Desculpa, moça, eu estava nervoso ali atrás não queria…

– Ah, tudo bem, eu só queria saber seu nome.

– Como?

– Seu nome.

– Meu nome? Anil.

– Anil? Você é indiano ou algo assim?

– Sou de Mumbai.

– Me dá seu número, Anil.

Anil desceu e estendeu um cartão. Era alto, esguio, braços fortes, no pescoço um colar de contas.

– O que é isso no seu pescoço?

– Isso? Ah, é um japamala.

– Gostaria de tomar um café?

Melissa desconcertou com sua atitude. Pensou em Jean e no esplêndido jantar com porcelana delicada e talheres de prata, pensou em tudo que já tinha e o quanto isso não era nada porque afinal de contas sua vida continuava sem graça.

Entraram juntos no café, Melissa e Anil. Um contraste que fazia bem aos olhos. O sapato de verniz, o all star azul tão gasto.

A conversa seguiu solta, leve, numa fluidez absoluta. Melissa enamorada dos olhos tão bem desenhados de Anil. Anil enamorado da brisa que aos poucos revelava a mulher.

Perguntou se Anil cozinhava, ele respondeu que sim entregando a mão para que Melissa sentisse o perfume impregnado de curry. Melissa sorriu; Anil perguntou por que.

– Com você, Anil, troco alta gastronomia por qualquer misto quente.

Anil sentiu um pouco de vergonha numa mistura de desassossego que já lhe corria o corpo todo.

Calda de Gengibre

 

– ilustração de Eduardo Nunes

Ela já estava cansada do desamor, mas mesmo assim insistia em consagrar sua natureza amando todas as coisas. A madeira áspera da sua mesa de trabalho servia para capturar ranhuras com giz pastel e ela aspirava aquele perfume ocre cor de laranja para que ele penetrasse seus alvéolos pulmonares. Cruzava as pernas e depois as estendia num balé delicado, a ponta do dedo alisava a ponta do tapete com fiapos brancos de algodão. O gato dormia na almofada de chita rosa, ronronando lindamente. No papel os olhos castanhos procuravam abrigar todos os medos; causavam-lhe o mais estranho pavor. Era noite de verão e o mar murmurava um descaminho. Podia sentir o calor da areia ressentida. Da cozinha vinha uma onda imensa de açúcar derretendo na panela; já se percebiam anunciados acordes de cravo e canela. Sua pele clara aos poucos bronzeava uma cor natural daquele lugar, os pelos eriçados pela febre cotidiana coloriam um intenso tom dourado. Suas coxas também reluziam. O aconchego se deu naquele caos que ondula cabelos. O vento insistia em abrir e fechar a veneziana numa melodia repetidamente irritante que ela fazia questão de esquecer. Aos poucos cresceu o ardor do gengibre e sua alma inflamada cedeu à tentação de chamar pela outra. A outra ou ela mesma e ela que era a outra em medidas desproporcionais e justas, simétricas, que já não se podiam perceber diferenças entre as duas. Suas mãos massageavam os ombros tensos para fazer relaxar as fibras da mão que desenhava quase em frenesi. Surgiu o traço do queixo fino, marcado por um longo pescoço adornado por flores de camélia. A outra sabia elevar os cabelos dela com suavidade e trançá-los num tricot fino que fazia com que ela transcendesse ao imenso rio de leite. Depois a orelha ficava descoberta com seu brinco de pena de pavão e um piercing lá no alto da curva, brilhando a luz de uma pequena estrelinha. Provocavam-se. Sabiam-se. As duas. Enamoravam-se com imensa alegria. Na cozinha o gengibre ralado fervia na calda de açúcar. Deixaram-se por alguns instantes. A mão quase terminava os traços daquele rosto inquieto que ressurgia de tempos em tempos, mas resolveu deixar para depois aquela melancólica agonia de não saber quem bate a sua porta. Foi até a beira da varanda onde os ladrilhos hidráulicos percorriam caminho para a praia. Descansou os pés na areia grossa e viu correr um siri por detrás dos vasos onde pendem os gerânios. O abraço circundou toda sua cintura e as quatro mãos se entrelaçaram sobre os quadris. Um leve sopro do hálito da outra sobre o pescoço dela fazia descobrir que o gengibre já tinha sido provado. Aos poucos se entreolharam, aos poucos respiravam quase o mesmo ar pedindo à morte que viesse assim. A intimidade do beijo voou até o céu da boca dela, os lábios da outra ardiam o bálsamo da raiz enquanto sua língua tocava os dentes brancos e os sonhos mais valorosos. Deitaram-se ali na rede amarela que balançava suavemente. Os dedos longos acarinhavam os cabelos e mergulhavam nos minúsculos botões da bata de cambraia. Não se sabiam sem elas mesmas, nem sem a outra oposta a ela naquela total cumplicidade entre iguais. Davam-se assim para o amor como quem deseja padecer na guerra, o corpo espiando o grito e a alma alagada pelo desejo do corpo. Eram duas na madrugada que pronunciava raios vermelhos do sol de março. Eram suas as esperanças de esquecer o antigo cansaço.