tomates maduros

– fotografia de Penélope Martins

Certa vez, esgotada de tanto trabalho, Estela não pretendia regressar para sua casa nem dar satisfação para ninguém de seu paradeiro. Sua cabeça parecia flanar entre pensamentos sem importância e outros tantos com obscenidades cotidianas. Estela resolveu comprar uma calcinha nova para tomar banho ali mesmo no hotel. Havia alguns quartos em reforma e não seria problema passar a noite por lá.

Já passava das nove, a Rua Augusta fervilhava todo tipo de gente. Estela deslizava macia nas calçadas, desfiando um charme quase inocente para os senhores de terno, os bêbados das calçadas e as mocinhas do dito serviço fácil.

Sorria para uns.

– Estela? Hei, Estela! Menina, que bom encontrar você hoje.

– Otelo, por aqui? Quando chegou?

– Ainda ontem.

– Mas, está ficando em outro lugar?

– Meu apartamento, agora.

– Que bom.

– Ia te fazer uma surpresa esta semana, mas você me surpreendeu antes.

Farei um jantar hoje, que tal? Vem comigo?

– Puxa, eu estou tão cansada… Vou acabar dormindo no hotel mesmo. Só vou comprar umas coisinhas para ficar direto.

– Vai comprar o que, Estelinha? Tem de tudo lá em casa, pode ficar por lá mesmo.

– Vou comprar calcinha, talvez um vestidinho.

– Eu lavo sua roupa.

Estela sorri com a extravagância de Otelo.

– Ah, Otelo,

– Agora tenho minha casa aqui nesta Cidade, posso receber meus amigos, posso receber você.

– É verdade.

– Venha, deixe disso minha menina. Vou cuidar de você hoje.

Na cozinha, os tomates lavados repousavam num escorredor junto de um feixe de ervas. Estela se aproximou para cheirar o pequeno ramalhete de manjericão, manjerona e…

– Tomilho, isto é tomilho.

– Que perfume delicioso. Não tinha visto antes tomilho fresco.  Tomates lindos.

– Tomates firmes e maduros assim como você.  Vou despelá-los, quer ver?

– Sim.

As mãos grandes de Otelo tinham uma agilidade encantadora com a faca sobre os tomates. Pele e sementes eram separadas da polpa da fruta.

– Quer que eu faça alguma coisa?

– Sim, quero que você vá tomar seu banho. Vou arrumar algo para você vestir, uma camisa talvez?

– Sim, pode ser uma camisa.

– Vai dar um bom vestidinho uma camisa minha no seu corpo.

Otelo temperou a água da banheira experimentando com suas mãos a temperatura. Estela estremeceu. Otelo deixou que ela se despisse ao lado dele sem que ele transbordasse seu encanto pela morena. Estela deixou que ele ficasse por perto, entrando e saindo do banheiro, conversando com ela suas coisas de cozinha.

– Por que você continua trabalhando no hotel, hein morena?

– Porque lá posso deixar meus braços trabalhando enquanto minha mente se liberta para o que eu desejo pensar. Não quero pensar em resolver a vida de ninguém, Otelo. Faço camas e me delicio quando troco os lençóis.

Estela sorri baixinho.

– Você deveria ir comigo para a Itália, que tal? Andar por lá livre das suas…

– Eu gostaria de estar livre do meu trabalho?

– Arrumo trabalho para você aos montes no restaurante. Mas eu queria mesmo era olhar você passeando nas vinhas.

– Deve ser belíssima a plantação. Você sabe o quanto eu gosto de sentir pisar a terra e ver frutos brotando ao meu redor.

– Estela, você é meu fruto bom de cultivar.

Otelo abaixou para beijar Estela. Estela beijou profundamente aquele homem, acariciando seus cabelos grisalhos e deixando que as mãos grandes dele passeassem dentro do banho. Estela mirou os olhos celestes de Otelo.

– Você fica comigo hoje?

– Não poderia não ficar.

Voltaram para cozinha e logo chegaram Léo e Sara, um casal de músicos amigos de Otelo.

Três dentes de alho bem socados com sal para fritar na panela até amarelar, uma cebola inteira picadinha até clarear, os tomates pelados cortados em pedaços abundantes. Um refogado que extasiava os sentidos dos amigos ao redor de garrafas de vinho tinto. Ervas frescas batidas na lâmina da faca – manjericão, manjerona, orégano, tomilho – também um bocadinho de noz moscada ralada sobre os tomates e pimenta branca. Um pouco de água para fazer virar um molho a ferver.

– Temos spaguetti e temos penne, o que vai ser?

– Penne!

– Um bom queijo ralado, não é Otelo?

– La Prima Donna, meu amigo!

– Queijos não favorecem o beijo, não é mesmo Otelo?

– Não diga isto, Sara, queijos tem sal tal o suor e suor combina com beijo, não?

– A boa mistura sempre agrada aos sentidos, Otelo, é verdade.

– Tomates, riso, pasta, conversa, vinho, queijo, beijo e ervas. Hum, não penso em nada melhor agora.

– Oh sim, você tem razão, meu amigo.

– Você mora por aqui, Estela?

– Sara, na verdade, hoje eu moro aqui.

Sorrisos se comprometeram com o jantar delicado que se servia. Depois uns pequenos biscoitinhos com licor deitaram nas línguas.

– Já passa das três…

Estela sentada à mesa com a camisa branca de Otelo a cobrir seu corpo ondulado. Otelo se despedindo dos amigos para tomar de assalto o manjar que a vida lhe servia tão inesperadamente.

o que você deveria saber sobre essa mulher mas nunca poderá

e se ela pinta as unhas de negro e no seu peito arde um antigo segredo, e se o amor é uma ilusão bonita e não se pode largar o vício de gritar na rua, e se tudo fosse dissolvido num piscar de olhos e tudo acabasse como um gole seco, e se fosse outra a acompanhar seus medos e disparar risadas infames, e se assim mesmo nada bastaria e jamais aguentaria supor viver sem a dúvida dessa mulher (ponto)

–  hiato –

e se ela visse uma nuvem no céu e deitasse sobre a grama molhada para falar sobre devaneios, e se ainda o ano estivesse começando e já não houvesse mais dinheiro, e se as flores desabrochassem no pé de tamarindo, e se as cores do mundo aquarelassem e nada no mundo estivesse livre de desmanchar, e se fosse de outro jeito inesperado e se suas calças jeans não suportassem mais sua pele (interrogação)

–  hoje não tem nada na geladeira.

– nada?

– nada… peraí, tem ovos, um pedaço disso aqui e damascos.

– damascos?

– sim, damascos.

– bom, acho que sai alguma coisa interessante.

–  qualquer coisa fica interessante com damascos.

– um beijo rápido –

– sim, você tem razão.

e se mesmo que ela tivesse esquecida ultimamente, e se ela não estivesse disposta para ajudar em nada, e se tudo ao redor estivesse beirando a desordem, e se as camisas estivessem todas por passar, e se os olhos lacrimejassem com o corte fino das rodelas de cebola, e se os olhos dela não pudessem mais parar de chorar, e os damascos fossem salpicados com água de lágrimas e alguns sorrisos que desajustassem a cena, e se tudo para ela fosse uma grande brincadeira (exclamação)

então ele esquentou um pouco de óleo na frigideira grande espalhou uma cebola média cortada em rodelas fininhas, um pouco de sal, pimenta do reino, e as cebolas foram clareando até a transparência, polvilhou um pouco de açúcar cristal e esperou caramelizar, juntou as claras em neve já misturadas com as gemas, os poucos cogumelos que haviam junto dos damascos, ambos picadinhos, uma porção de cheiro verde e  o pedaço de queijo ralado em fios mais grossos, e tudo ficou bem firme até que ele conseguisse virar para tostar o outro lado.

– voilá!

– parece bom.

– tudo fica bom com damascos.

– sim, eu disse né?

– até a vida fica melhor com damascos.

– a vida?

– é, a minha, a sua… a nossa vida, pequena.

– a nossa vida é boa como é.

– mas vezes esvazia, né?

– esvazia?

– sim, eu vejo aí nos seus olhos um pouco de vida esvaziada.

– é que eu sou assim meio torta, não tem nada haver com você.

– claro que tem. você é minha pequena e eu tenho que cuidar de você.

– (um sorriso)

– e eu vou cuidar de você trazendo damascos para sua vida, adoçando seus lábios e deixando drenar todo vazio do seu peito.

– está mesmo muito bom.

– está?

– sim.

– que ótimo que gostou.

– conseguiu um grande feito.

– é?

– parecia que não tinha mais nada na geladeira… daí fez um jantar assim, simpático, bonito.

–  tinha o necessário para que eu inventasse e se…

– se…

– se somente o resto nos sobrasse mesmo assim eu estaria disposto a reinventar para estarmos juntos.

– eu sei.

– e eu sei que você sabe que eu sei de você também.