bem bom

chuva fria
chuva fina
chuva tanta
chuva mantra

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poeminha que não sabe ser

queria ser toda para ti, mas para tal era assim, antes necessário – separar-me de mim – e não ser nada  além do reflexo do desejo. então melhor ser, mesmo insatisfeito afinal é mesmo só – eu -, uma fatia, que na fusão confusa e descrente faz vencer o melhor dos nossos dois mundos: sempre diferentes.

candelabros ao luar

Estela já estava acostumada com o refinamento do paladar. Há mais de cinco anos trabalhava em um hotel bacana de São Paulo e sempre visitava a cozinha para experimentações junto de sua amiga Lola.

Lola guardava em potinhos todas as mais delicadas iguarias culinárias na tentativa desesperada de obter a aprovação de sua amada.

(…)

– fotografia de Penélope Martins

Já era tarde quando Estela chegou perto de casa. Passou no mercado do centro e vinha desde lá segurando uma sacola pesada de ingredientes para o jantar.

Subiu o morro com uma lua cheia imensa que mudava a densidade do ar ao redor do corpo dela como uma fumaça inebriante. Um passinho ritmado se deu, quebrando quadris sem pressa alguma.

Abriu a porta dos fundos que dava direto na cozinha, colocou a sacola sobre a pia e abriu as cortininhas salpicadas de rosinhas vermelhas que ela mesma havia costurado.

Estela era uma mulher de mil talentos, muitos deles incompreendidos pela maioria. Mas ela já não se importava com opiniões alheias e muito menos com maiorias.

A lua invadiu o olhar de Estela refletindo na íris a imponência das flores do pé de eritrina candelabro. Estela estendeu as pernas com força e foi para a ponta dos pés na intenção de olhar tudo lá fora.

Um jasmim manga cheirava delicado perfume.

Estela passou a adiantar o jantar.

Apanhou então uma cebola grande para picar em quadradinhos minúsculos. Estela chorava um pouco pelo ardor da cebola, um pouco pela distância da lua, um pouco pela beleza das flores de eritrina.

Depois quatro tomates foram pelados, dispensadas suas sementes e levemente picados. Por cima dos tomates, folhinhas de manjericão e de manjerona lavadas uma a uma. O manjericão floria no beiral da janela ao lado do vasinho com manjerona.

Tirou da sacola um pedaço de carne que serviria para os dois. Acendeu a chama para uma panela de pressão, colocou um pouco de óleo, selou a carne por todos os lados.

Despejou na panela a cebola inteira, sal e pimenta do reino, deixou a cebola ficar transparente para colocar os tomates com manjericão. Depois umas três colheres de sopa de molho inglês. Cobriu com duas xícaras de água e fechou a panela de pressão. Foi quando ele chegou.

Antônio abraçou Estela por trás enquanto ela lavava uma coisa ou outra ali na pia. Pressionando seu corpo contra o dela, Antônio beijava as pontas das orelhas de Estela do jeito que ela mais gostava.

Estela gostava do jeito intrometido de Antônio, sem pedir licença e sem conter impulsos.

– Cheguei e já fui preparando um jantar pra gente, Antônio. Coloca um som pra gente ouvir e me espera. Eu preciso de um banho.

– Banho, é? Não fala assim, Estelinha, que você me põe doido…

– Eu vou tomar banho só, Antônio, deixa de graça. Tem panela no fogo.

– Então desliga isso, essa fome pode esperar.

Estela sorriu e deixou Antônio esperando.

Talvez uns três anos já os dois se encontravam. Antônio queria casar. Estela preferia assim. Antônio queria ser o único. Estela achava tudo isso uma grande bobagem.

Antônio ligou o rádio e a morena cantou no chuveiro aquela canção:

“… mesmo a tristeza da gente era mais bela e além disso se via da janela um cantinho de céu e o Redentor…”

Veio para ele de vestido branco de algodão. Desligou a pressão que já cozinhava por vinte e poucos minutos e deixou ali em cima do fogão até que soltasse todo vapor.

– O arroz já tá pronto, só precisamos esperar a panela esfriar para abrir…

– Então vem aqui, Estelinha.

Antes do jantar a luz da lua cheia cedia ao brilho intenso do suor da pele morena; amparada sobre a mesa da cozinha, enfeitada com flores altas de eritrina candelabro, Estela dava amor ao amor de Estela.

o dilúvio, o hipopótamo e o automóvel

As águas cercavam o lugar todo e a caminhoneta virou sobre Apolo, para total desespero do seu amigo Otacílio Ramos da Silveira.

– Ajudem-me a salvar meu hipopótamo! Ajudem-me por favor!

Apolo estava preso sob a caçamba do automóvel, apenas deixando as grandes narinas para fora do aguaceiro.

Eu avistava a cena de uma parte alta da vila e de lá fiz sinal para Otacílio parar de gritar. Logo ele entendeu minha mensagem e mudou seu pedido de socorro:

– Ajudem-me a salvar a caminhoneta! Vamos, estou perdendo meu automóvel!

Todos correram para prestar auxílio e, por fim, conseguiram êxito na tarefa.

Apolo escorregou para fora e Otacílio lembrou de me agradecer com afetuoso olhar.

Pensei comigo que aquilo era uma prova irrefutável de ignorância e desdém, mas a alegria de ver Apolo livre acabou com meu pesadelo filosófico.