Toda Inteira, de Baudelaire

O Diabo, em meu quarto um dia,
Apareceu para me ver,
Pensando que me confundia,
Disse-me: “Eu quisera saber,

De todas as coisas formosas,
Que fazem com que a queiras tanto,
De todas as noites e rosas,
Que de seu corpo são o encanto,

Qual é a mais doce?” – Oh minha alma!
Respondeste ao Escarnecido:
“Pois que ela é um bálsamo de calma,
Nada ela temd e preferido.

E meu ser sempre ao vê-la ignora,
Em que encantos dos seus se acoite.
Ela fascina como aurora,
Ela Consola como a noite.

Mas esta harmonia é imprecisa
Que o seu belo corpo governa.
A nossa visão que a analisa
Não vê sua beleza eterna.

Ó metamorfose tão mística
Que os meus sentidos já resume!
O seu hálito faz a música
E sua voz faz o perfume!

 

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