Responsório, de Adélia Prado

Santo Antônio,
procurai para mim a carteira perdida,
vós que estais desafadigado,
gozando junto de Deus a recompensa dos justos.
Estão nela a paga do meu trabalho por um mês,
documentos e um retrato
onde apareço cansada, com uma cara
que ninguém olhará mais de uma vez
a não ser vós, que já em vida
vos apiedáveis dos tormentos humanos:
sumiu a agulha da bordadeira,
sumiu o namorado,
o navio no alto-mar,
sumiu o dinheiro no ar.
Tenho que comprar coisas, pagar contas,
dívidas de existir neste planeta convulso.
prometo-vos uma vela de cera,
um terço de meu salário
e outro que rezarei
pra entoar vossos louvores, ó Martelo dos Hereges,
cuja língua restou fresca
entre vossos ossos, intacta.
Servo do Senhor, procurai para mim a carteira perdida
e se tal não aprouver a Deus para a salvação da minha alma,
procurai antes me ensinar
a viver como vós,
como um pobre de Deus.
Amém!

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metamorfoses

Manjerona invade o ar da minha cozinha, especiaria de um molho que está prestes a alcançar o ponto. Depois todos os delicados ingredientes deitarão sobre uma cama de borborletinhas… Assim segue a vida como é, metamorfoseando entre os andares de panela e das notícias que se lê (e não poderia ser diferente). Uma celebração de ricas experiências para sentir (refletir e seguir em frente).

Ontem nada disso acontecia, amanhã será bem diferente. Sempre algo novo no cardápio.

QUANDO ELA VOLTAR PARA CASA, de James Whitcomb Riley (1849-1916)

Quando ela voltar para casa! De mil maneiras
Imagino a ternura
De minha alegre acolhida; sim, vibrarei
E a tocarei, como quando, nos velhos tempos,
Toquei suas mãos de menina, sem ousar erguer
Os olhos, tal era minha doce aflição.
Depois, o silêncio. E o perfume de seu vestido.
A sala oscilará um pouco e, por algum tempo,
Enevoados ficarão meus olhos – até mesmo minha alma.
E haverá lágrimas, sim. E um nó na garganta,
Por saber que tanto desmereço o lugar
Que seus braços prepararam para mim. E o tom soluçante
Acalmo com beijos, antes que a face lacrimosa
Mais uma vez se esconda no velho abraço.

 

bilhete

bilhete sinuoso
desdobra-se
leituras de arredores
passeio de olhos –
palavras que entornam
a língua
emaranhados do ouvido
bilhete sinuoso
umbigo
ao ilíaco
o poço melancólico
fé do desassossego,
breves tornozeleiras.
um convite
:
leia-me, enfim.