poema de Francis Thompson (1859-1907)

fotografia de Isabel Ferreira

O verão pousou os lábios no seio nu da terra
E deixou ali sua marca rubra sobre uma papoula:
Como um bocejo de fogo, da grama ela emergiu,
E o vento brando inflou-a em aberta chama.

Com a boca vermelha ardente ela bebeu
O sangue do sol que, abatido, tombava,
E mergulhou sua taça no brilho purpurino
Quando os condutos do leste carregavam-se de vinho.

Até que ficou letárgica com a atordoante euforia
E quente como uma cigana exaurida.
E cochilou em sonolentos êxtases,
Com a boca entreaberta para um beijo sensual.

Uma criança e um homem caminhavam lado a lado,
Percorrendo as orlas do entardecer;
Mas entre as mãos unidas dele e dela
Repousavam, mesmo não sentidos, vinte ressequidos anos.

 

Santa Cecília, protetora dos poetas

Santa Cecília,
Livrai-me das convenções das letras
Das formas rebuscadas,
Das métricas dolorosas,
Da rigidez poética.
Santa Cecília,
Livrai-me do querer ser
Aquilo que já não é
Porque nunca foi em essência,
Livrai-me do desejo
de poesia rimada.
Livrai-me, Santa Cecília,
Dos olhos ejetados da crítica,
Mas antes de tudo,
Livrai-me da crítica
Que a mim mesma imponho.
Santa Cecília,
Livrai-me
Daquilo que já está posto.

Fama, do dicionário de mitologia Greco-Romana

“Divindade alegórica, cujo nome significa “voz pública”… É representada com numerosas bocas e ouvidos… Desloca-se voando rapidamente para levar a todos os lugares tanto a mentira quanto a verdade. Mora num palácio de bronze sonoro,… seus ouvidos atentos ouvem todas as vozes, por mais baixas que sejam… perambula uma multidão e espalham-se boatos tão rapidamente quanto as notícias verdadeiras. Rodeada da credulidade, do erro, da falsa alegria, do terror, da sedição e dos falsos rumores, Fama vigia o mundo inteiro.”