A estrada, de Ana Hatherly

Os poemas são uma peregrinação

uma crença
que impele o poeta corpo a corpo
com o abismo que o cerca

A batalha é infinita
assenta no interesse do acaso
do ocaso
dos infinitos mortos
em cujos ombros subimos
incansáveis

Qual é o prazer do caminhante
senão
o de encontrar a invisível ponte
a ambição de ousar?

A nostalgia é um erro da paixão
O poema é um rio de vozes

Diluviando

A chuva desperta em mim um desejo quase inconsequente de me apartar do mundo. Escorrer pelas calhas e desandar pelas ruas, beirando calçadas até encontrar uma boca imensa (de lobo). Diluviando até ser devorada. Diluviando até ser absorvida pelo mar ou pela terra.

Tantas vezes fugi de casa pra tomar banho de chuva no oco da rua, andando sem direção. Vazia.