aos juízes

quem de nós
pode lançar olhar tão preciso
língua tão ágil e certeira
sobre o andar daqueles sapatos
dos quais não sabemos
nem do conforto, nem do desagrado.
qual de nós é capaz de fazê-lo?
será quem julga
justo juiz dos seus feitos
na mesma medida que é capaz
de dilacerar
o comportamento alheio?
larguemos, pois, a vida dos outros.

– Diga-me algo extremamente bom, por favor.
– Eu te amo.
– …
– O que foi?
– Você me amar.
– O que tem? Não é bom?
– Sim é, mas ao mesmo tempo pesa fundo, marca, dói…
– …
– O amor. Você entende? Bem, claro que sim…
– Claro…

Saudades – IV

Sinto saudades do tempo de infância:
Banhos de mangueira e corridas de bicicletas.
Piqueniques no morro com todas as outras crianças
Tombos, raladas, mertiolate, curativo, bombom.
Saudades da vontade enorme de ser gente grande
E do sentimento de que eu poderia fazer tudo o que quisesse.

Prenda

Sim, eu digo
Inspirando seu ser
Entrego
Olhar doce
Contagiante
Língua macia
Vícios de ti
Cantarolar azul profundo
Mover
Todas as partes
Tornar a vir
Ser
Carinho manso
Místico aromático
Nobreza
Belo em si e mais nada
No umbigo
Cio de idéias
Côncavo
Rio que exaspera
Sinestesia
Sim, extasia